Gesto
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Edição de 17h51min de 25 de Maio de 2009
Versão Inicial: Ana Cristina Carvalho Pereira
Curador: Ana Cristina Carvalho Pereira
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Introdução
Gesto é uma palavra que vem do latim lat. géstus,us' e significa movimento, atitude, gesto, gesticulação, esgar, visagem, careta. É uma ação corporal visível e voluntária, pela qual um determinado significado é transmitido.
O gesto é uma forma de comunicação não-verbal de um indivíduo que possuiu uma grande expressividade permitindo expressar uma variedade de sentimentos e pensamentos. É feito com uma ou mais partes do corpo, às vezes usando o corpo inteiro, mãos, braços e expressões fisionômicas. Acontece sem ou com a combinação de uma comunicação verbal podendo dar mais força à fala, ou mesmo substituí-la.
"O homem é um ser em movimento e, ao mover-se, põe em funcionamento formas de expressão completas e complexas. [...]. A expressão gestual serve tanto a intenção cognitiva, expressiva ou descritiva, quanto a referências de ordem afetiva."(Rector & Trinta, 1993, p. 21)
A linguagem do gesto
É o processo pelo qual as pessoas manipulam intencionalmente ou não ações e expectativas exprimindo experiências, sentimentos e atitudes de forma a relacionarem-se e controlarem-se a si próprias, os outros e o ambiente (Hickson e Stacks, 1985).
Estudos têm indicado que “os elementos não verbais da comunicação social são responsáveis por cerca de sessenta e cinco por cento do total das mensagens enviadas e recebidas no processo de interações humanas, nas quais o gesto tem um papel fundamental” (Rector & Trinta, 1993, p. 21).
Nesta linguagem não verbal, facilmente identificamos os seguintes gestos corporais:
Cabeça
Os movimentos de cabeça são importantes indicadores do andamento de uma interação. Os acenos de cabeça são sinais não verbais muito rápidos, mas perceptíveis. Um aceno de cabeça de quem ouve é entendido por quem fala como um sinal de atenção, desempenhando um papel de reforço e encorajamento para continuação da fala.
Olhos
A frequência, a duração e a ocasião de um olhar são fatores que permitem enviar mensagens sobre o relacionamento entre duas ou mais pessoas. Ao estabelecermos contacto visual com o outro, ele irá de alguma forma sentir-se incluido na conversa, ao mesmo tempo que podemos elimina-lo da conversa, eliminado o contacto visual. Um olhar transmite uma série de comportamentos, desde um comportamento passivo através de um olhar evasivo, ou um olhar direto e terno que pode indicar carinho, consideração, entre outros.
Mãos
Estes gestos podem ser executados por uma ou duas mãos. É a categoria de gesto com maior ocorrência devido a habilidade e precisão da mão humana em adquirir um grande número de configurações claramente perceptíveis. Daí a importância que se atribui à língua de sinais, que não será tratada aqui. Os movimentos de mãos que fazemos quando falamos são fortemente interligados com a nossa fala no tempo, no significado e na função. Ignorá-los é ignorar uma parte da conversação.
Posições do corpo
Um dos aspectos importantes da comunicação não verbal é a postura. Esta designa os modos de nos movimentarmos, sendo algo que se vai adquirindo com o tempo e com os hábitos. Este sinal, é em grande parte involuntário, mas pode participar de forma importante no processo de comunicação. Em todas as culturas existem muitas formas de estar deitados, sentados ou de pé e posturas variadas que correspondem a situações de amizade ou de hostilidade, bem como posturas que indicam um estado ou condição social, entre outros.
Movimentos do corpo
A maneira como um indivíduo estrutura o seu micro-espaço é feito de forma inconsciente, sendo esta uma questão sempre relacionada com a situação, o ambiente e a cultura.
Expressão facial
O canal privilegiado de expressar as emoções é o rosto. Todos nós temos uma série de máscaras e movimentos faciais que utilizamos de acordo com aquilo que queremos transmitir. As expressões faciais desempenham diversas funções, tais como, expressão das emoções e das atitudes interpessoais, o envio de sinais inerentes à interacção em curso e a manifestação de aspectos típicos da personalidade de um indivíduo.
Significado cultural dos gestos
Todos nós, mesmo inconscientemente, somos portadores de especificidades culturais em nossos corpos. Todo indivíduo desenvolve características corporais em relação à forma e movimento, de acordo com o seu contexto social, sua história familiar, suas experiências motoras e emocionais e sua bagagem cultural.
A maioria dos povos além das palavras usa gestos quando falam. Este uso por alguns grupos étnicos é mais frequente do que em outros, e esta variação da quantidade da gesticulação é considerada um fator cultural. Isto se dá porque diversas partes do corpo humano são solicitadas de forma diferenciada, de acordo com as demandas da vida individual e social.
Partilhando a opinião de George H. Mead (1934), a conversação por gestos está na origem de qualquer linguagem, ela é o modelo de qualquer comunicação, já que comporta dois aspectos de qualquer processo social: a reação de adaptação do outro e a antecipação do resultado do ato.
Os tipos mais conhecidos de gestos são os emblemáticos. São específicos de cada cultura, sendo que cada comunidade tem repertórios específicos de tais gestos. Um único gesto emblemático pode ter um significado muito diferente em contextos culturais diferentes, transformando-se de elogio a altamente ofensivo. No Brasil, por exemplo, o gesto americano “OK” feito com a mão é tradicionalmente interpretado como ofensivo.
Podemos apontar trabalhos de grande relevância para o entendimento da correlação do gesto com a narrativa dos falantes de diferentes línguas e suas culturas. Consultar, por exemplo:
• David Efron. - Gesture and Environment (1941); Gesture, Race and Culture (1972);
• Adam Kendon - Geography of gesture (1981); Conducting Interaction: Patterns of Behavior in focused encounters (1990);
• Sotaro Kita - Language and thought interface: A study of spontaneous gestures and Japanese mimetics (1993); Speech-accompanying gestures as a window into event conceptualization at the moment of speaking in adults and children (2004);
• Cornelia Muller - Semantic structure of motional gestures and lexicalization patterns in Spanish and German descriptions of motion-events (1994).
Visão histórica de estudos sobre o gesto
Estudos tradicionais
Na tradição Romana, Marcus Tullius Cicero (106 a 43 a.C.) discute os gestos e as expressões faciais em seus tratados sobre a arte da oratória enfatizando como os gestos especialmente o rosto deve ser usado para expressar sentimentos no discurso.
Marcus Fabius Quintilianus (30 a 95 d.C) apresenta a discussão mais completa sobre os gestos do período Romano. Em sua obra Institutio Oratória, um programa completo para a educação de um jovem orador e como o gesto deveria ser usado no discurso retórico, Quintilianus chama a atenção para a importância de dois aspectos: a voz e o movimento (Kendon, 2004).
O retórico latino Julius Victor (entorno do século IV d.C.) fala sobre a importância dos gestos e das recomendações feitas para sua utilização. Particularmente sobre o olhar e a mão diz que, “frente à diversidade infinita das línguas faladas por todos os povos e todas as nações elas [as mãos] me parecem ser a linguagem comum de todos os homens” (Julius Victor, em torno do século IV d.C. apud Patillon (1990, p. 11-12)).
"São [as mãos] por assim dizer uma segunda palavra; pedem, prometem, chamam, despedem, ameaçam, suplicam, repelem com horror, temem, interrogam, negam; [elas] expressam a alegria, a tristeza, a hesitação, a aprovação, o arrependimento, a medida, a quantidade, o número, o tempo; [elas] incitam, reprimem, aprovam, marcam a admiração ou o pudor; [elas] substituem o lugar dos advérbios e dos pronomes para indicar um lugar ou uma pessoa [...] (Julius Victor, em torno do século IV d.C.)."
Apesar de regras sistematizadas para os oradores (Cícero, Quintilianus, Julius Victor, etc.) muitas vezes, eram atribuídas conotações negativas a uma gesticulação exagerada, por revelar não só a falta de formação retórica do orador, mas também falta de conhecimentos linguísticos.
No século XVII, destacamos Jonh Bulwer (1606-1656), que publicou os tratados: Chirologia, or the Natural Language of the hand e Chironomia, or the Art of Normal Rhetoric, em 1644. No primeiro tratado, o autor apresenta inicialmente uma observação introdutória em que exalta o discurso e a aptidão das mãos e em seguida lista e discute sessenta e quatro gestos das mãos, quarenta e oito dos quais estão ilustrados em dois quadros chirogramáticos.
O rigor desses estudos foi uma influência marcante nas obras de vários autores posteriores de manuais de gestos da época vitoriana e modelo para vários livros publicados nas décadas subsequentes.
Gilbert Austin (1753 -1837), no século XIX, escreve Chironomia (1806), que foi o estudo do gesto mais ambicioso e influente publicado no período. Seu trabalho foi influenciado por Quintilianus no que diz respeito à arte do uso do gesto e também foi fortemente influenciado pelo trabalho de Jonh Bulwer.
O sistema de notação dos gestos de Austin começou a partir de uma representação do corpo em uma esfera imaginária, dentro da qual o falante movia seu corpo, pés, mãos na direção de um dos pontos demarcados na esfera.
Outro estudo importante foi feito por Albert M. Bacon que, baseado explicitamente no modelo de Austin, meramente simplificou e atualizou suas figuras ilustrativas de modo que pareçam sobriamente vestidas e senhoriais. Adicionalmente, apresenta uma variedade de expressões faciais. Podemos observar nas figuras abaixo que, como Austin, Bacon usava uma esfera imaginária para mapear os gestos dos falantes.
No Iluminismo, desenvolveu-se um novo interesse no gesto que, de algum modo, chega até os dias de hoje. De fato, no século XVIII os filósofos estavam preocupados com a origem da linguagem e com a base universal da razão. Vários pensadores acreditavam que as primeiras línguas fossem gestuais. Por exemplo, Condillac ([1756] reimpressão 1971 apud McNeill, 1995) afirmou que a linguagem original emergiu de signos naturais, ou seja, dos gestos.
Mais recentemente, a conexão entre gesto e pensamento foi um dos centros de interesse de Wilhelm Wundt (1832- 1920). Ele foi o fundador do primeiro laboratório moderno de psicologia no Instituto Experimental de Psicologia da Universidade de Leipzig, na Alemanha em 1979. Seu interesse pelo gesto se restringiu aos gestos convencionalizados, como os gestos típicos dos napolitanos, dos índios americanos, e os da linguagem de surdos. Contudo, com seus estudos faz com que o gesto se tornasse um importante elo entre a forma interior e a sua tradução em forma exterior - uma concepção que também aparece na psicolinguística contemporânea.
Somente na pesquisa pioneira de David Efron (1941) em sua tese de doutorado, Gesture and Environment, os gestos espontâneos que acompanham de modo sincronizado a fala foram descritos. Seu trabalho foi um marco de cientificidade pelo rigor de seu método. A partir de uma visão antropológica, Efron observou e analisou dois grupos de imigrantes europeus alocados em New York (judeus do leste europeu e italianos do sul) realizando observações visuais, chegando a realizar filmes em câmara lenta (porém mudos) e inúmeros desenhos. Ele introduziu as categorias gestuais que têm sido a base de todos os esquemas classificatórios subsequentes de gestos, além do método de observação de gestos espontâneos do cotidiano.
Posteriormente, os estudos sobre gestos, iniciados por DaviD Efron na década de 40, foram amplamente divulgados na década de 70 por Ekman e Friesen (1969). Neste período os dois autores propuseram um esquema de classificação da linguagem não verbal, identificando cinco tipos de gestos:
• ilustrativos - ocorrem durante a comunicação verbal e servem para ilustrar e dar forma ao que está sendo dito. Qualquer tipo de movimento corporal que desempenhe um papel auxiliar na comunicação não verbal é um ilustrador;
• adaptadores - são gestos utilizados para esconder emoções que não queremos expressar. São utilizados quando o nosso estado de ânimo não é compatível com a situação inter-relacional;
• emblemáticos - são sinais emitidos intencionalmente, o seu significado é específico e muito claro, já que representa uma palavra ou um conjunto de palavras bem conhecidas, como por exemplo, levantar o polegar para cima para dizer que “está tudo bem”. São os gestos específicos de cada cultura;
• reguladores - são movimentos produzidos por quem fala ou por quem ouve com a finalidade de regular as intervenções na interação. Os gestos reguladores mais frequentes são as inclinações de cabeça e o olhar fixo. São usados para controlar os turnos de fala na conversação;
• exposições da influência - São semelhantes aos ilustradores no sentido em que também acompanham a palavra, mas diferem deles no aspecto de refletirem um estado emotivo em que se encontra a pessoa. Através deste tipo de gestos expressam-se emoções como: a ansiedade ou a tensão do momento.
Um avanço importante no campo destes estudos sobre o gesto foi o trabalho de Adam Kendon. Ele investigou muitos aspectos dos gestos, incluindo seu papel na comunicação, na evolução da língua bem como a convencionalização do gesto. Também propõe a integração do gesto e do discurso a partir da existência de uma unidade entre a fala e o gesto, mencionada em dois de seus artigos mais importantes como: Some relationship between body motion and apeech (1972) e Gesticulation and speech: two aspects of the process of utterance (1980).
Estudos atuais
Durante séculos o gesto foi considerado, no melhor dos casos, como um aspecto trivial ou um simples adereço da expressão humana. Como consequência, apesar do grande número de livros e de artigos que foram publicados sobre o gesto, nós ainda estamos na fronteira de um território desconhecido.
Somente nos últimos quinze anos é que a relevância do estudo sobre o gesto reaparece e se intensifica, envolvendo áreas como linguística, arqueologia, antropologia, biologia, neurologia, etnologia, teatro, literatura, artes visuais, dança, psicologia cognitiva, engenharia computacional, etc. Esta ampliação das pesquisas e das áreas envolvidas são uma tentativa de apresentar o que parecem ser as linhas mais importantes a respeito do gesto de investigação que ainda precisam ser desenvolvidas.
Uma das abordagens, entre muitas, que possibilitou a ampliação destes estudos busca responder de forma diferente às perguntas sobre o que são a mente, a cognição e qual o papel do corpo no processo, tendo como conceito chave o de Embodiment[1].
Segundo Gibbs (2006, p. 276)[2],
"A cognição ocorre quando o corpo interage com os mundos físico e cultural e deve ser estudada em termos das interações dinâmicas entre pessoas e seu meio. A linguagem e o pensamento humanos emergem a partir de padrões recorrentes de atividade corporificada que condiciona o comportamento inteligente em ação. Não devemos supor que a cognição seja puramente interna, simbólica, computacional e desencarnada, mas buscar os vários modos que linguagem e pensamento estão inextricavelmente modelada pela ação corporificada."
Passa-se a discutir como a mente e o corpo são relacionados de maneira muito íntima, e como o pensamento e a linguagem humanas são ligados fundamentalmente à ação corporal.
Para Gibbs [3] (2006, p. 165 -166) esta,
"A abordagem de discurso e gesto supõe que estas atividades comunicativas estão baseadas em processos de pensamento comuns. O gesto e o discurso têm um forte relacionamento recíproco através de processos inteiros de produção de discurso indo da codificação fonológica até a produção de sintaxe, semântica e discurso. Embora a fala e o gesto possam comunicar aspectos diferentes dos pensamentos das pessoas, o acoplamento íntimo dessas atividades sugere que qualquer ruptura em um (p.ex, o gesto) acarretará efeitos negativos no outro (p.ex., o discurso)."
Renovam-se assim, de maneira ímpar, nossos padrões usuais de conceber e pensar o conhecimento e o saber humanos como também a maneira em que as teorias são desenvolvidas e a pesquisa é realizada. Nesta óptica, o uso do gesto, além de constituir-se num elemento inovador, tem se tornado um tema de pesquisa instigante e desafiador, levando à novas frentes de pesquisa que buscam alternativas para esclarecer a relação entre gesto, linguagem e cognição.
Neste novo cenário, uma das grandes referências no campo da pesquisa do gesto é Adam Kendon, mencionado anteriormente, que continua investigando diferentes aspectos dos gestos, incluindo seu papel em uma comunicação, convencionalização do gesto, integração do gesto e do discurso, e a evolução da língua.
Outro aspecto importante são as interações cada vez mais frequentes entre investigadores do gesto, de vários centros de pesquisa internacionais. Isso vem possibilitando o crescimento do gesto como temática das agendas de pesquisa em linguagem. Destacam-se como proeminentes pesquisadores neste campo David McNeill, Susan Goldin-Meadow, Sotaro Kita e Lorenza Mondada, entre outros.
David McNeill (1995, 2000), do McNeill Lab / Center for gesture and speech research, em seus estudos, chama atenção especial para os gestos produzidos durante a fala que estão frequentemente e estritamente ligados às mensagens comunicativas dos falantes, ou seja, criações espontâneas e individuais, semântica e pragmaticamente co-expressivas que compõem uma unidade inseparável e têm por base o processo cognitivo.
Goldin-Meadow (2003) investigou intensivamente em crianças o papel do gesto na resolução de problemas matemáticos. A mesma autora e colaboradores (1986, 1998, 2003, 2004, 2005), vem investigando tópicos aparentemente independentes como cognição, desenvolvimento, ensino, da língua materna e aquisição da segunda língua e vários outros campos, mas relacionados primordialmente ao estudo de uma comunicação não-verbal, especificamente gestual. Apresentam-se como aspectos centrais do trabalho de Goldin-Meadow, desenvolvido no Goldin-Meadow Laboratory em Chicago: relação dos gestos com o ato da narrativa; gestos como orientadores de outras funções, além da comunicativa; gesto como um ato do pensamento; gesto afetando o processo mental do próprio sujeito falante; possibilidade do envolvimento dos gestos na fase de conceitualização, planejamento e organização do discurso oral.
Segundo Kita (1993) e colaboradores (2000, 2003, 2004), chamam atenção para os indícios de que a comunicação não é a única coisa que o gesto expressa, mas que eles podem refletir e afetar os próprios processos mentais dos falantes, ou seja, os gestos estão envolvidos na fase de elaboração conceitual da narrativa, facilitando o acesso a itens do léxico mental. Coordenada por Sotaro Kita, a pesquisa do gesto desenvolvida no Instituto de Psicolinguística Max Planck, em Nijmegen na Holanda, teve início em 1993. Os tópicos de pesquisa desenvolvidos no instituto expandiram e abrangem agora diversos aspectos, que vão do estudo da execução e do significado dos gestos até o seu papel na cognição e na comunicação. Estes interesses focalizam a função dos gestos nos processos da comunicação, bem como a cognição na interação psicolinguística.
Também podemos destacar a pesquisadora suíça Lorenza Mondada (2003, 2005), estudiosa da referenciação, que tem se dedicado a entender não só o processamento cognitivo, mas também recursos publicamente manifestados pelos locutores como: práticas gestuais, movimentos no espaço, orientação do olhar, que são mobilizados para realizar propriedades referenciais, denominados objetos do discurso (MONDADA, 2005). Seu estudo parte da posição de que a maneira pela qual categorizamos o mundo e o dizemos no discurso é resultado de um trabalho complexo que envolve percepção, negociação, e várias estratégias complexas para dizer o mundo percebido.
Tipos de gestos
Com a evolução dos estudos sobre o gesto, as tipologias propostas anteriormente foram ampliadas, como também, novas tipologias foram apresentadas de acordo com as especificidades das pesquisas. Entre elas, a de David McNeill, o primeiro investigador a estudar sistematicamente a relação entre o pensamento e o gesto, têm mostrado que falantes produzem 4 tipos de gestos durante conversas e quando narram estórias, e que esses gestos desempenham um papel particular na narrativa relacionado a suas funções especificas. Em sua tipologia, McNeill (1992, 1995) distingue os seguintes tipos de gestos:
- icônico - são gestos estreitamente relacionados ao discurso, ilustrando o que está sendo dito, pintando com as mãos, por exemplo, quando uma pessoa ilustra um objeto físico usando as mãos para mostrar como é grande ou pequeno. Os gestos icônicos são úteis porque adicionam o detalhe à imagem mental que a pessoa está tentando informar. O sincronismo dos gestos icônicos com discurso pode mostrar se são inconscientes ou estão sendo adicionados deliberadamente para o efeito consciente. Em um uso inconsciente, a preparação para o gesto começará antes que as palavras estejam ditas, enquanto no uso consciente há uma retardação pequena entre as palavras e o gesto. Um gesto será icônico se inclui uma relação formal íntima com o conteúdo semântico;
- metafórico - se parecem exteriormente com os icônicos, mas se referem às expressões abstratas. Os gestos estão no espaço tridimensional e são usados para dar forma a idéia que está sendo explicada, com formas específicas como uma ondulação mais geral das mãos que simbolize a complexidade do que está sendo explicado;
- dêitico - são gestos demonstrativos ou direcionais. Acompanham as palavras como aqui, lá, ou isto, e também eu e você. São movimentos de apontar, tipicamente realizado com os dedos, embora qualquer extensão de objetos (objetos manipulados) ou do corpo (cabeça, nariz, queixo) possa ser usada. Os gestos dêiticos, que acompanham as narrativas apontam geralmente as entidades concretas;
- ritmados (beats) - é a batida rítmica de um dedo, da mão ou do braço. Aparecem ligados ao ritmo da fala conferindo uma estrutura temporal ao que é dito e enfatiza a força combativa do argumento, independentemente do conteúdo expressado. Usados conjuntamente com o discurso e marcam e mantêm seu ritmo enfatizando determinadas palavras ou frases.
Alguns temas de pesquisa mais recorrentes da atualidade
- relação entre o gesto e o discurso; - papel do gesto na comunicação em circunstâncias da interação social, incluindo conversações, locais de trabalho ou situações de aprendizagem; - papel dos gestos no desenvolvimento das crianças; - lugar do gesto no processo de aquisição da língua materna e estrangeira; - processos espontâneos nos quais os gestos podem tornar-se formulários codificados; - documentação e a discussão dos vocabulários de gestos; - estudos de sistemas do gesto ou de línguas do sinal tais como aqueles que se tornaram nas fábricas, comunidades religiosas ou em sociedades tribais; - papel do gesto em interações ritualísticas como, os sinais de cumprimentos, os religiosos, os civis e as oficiais; - comparação de gestos entre diferentes culturas; - gestos na interação social do primata; - estudos biológicos do gesto, incluindo discussões do papel do gesto na teoria das origens da linguagem; - gesto na interação multimodal homem-máquina; - estudos históricos do gesto; - gesto no teatro; - gesto como parte da retórica; - análise do gesto na interação face-a-face; - significado do gesto; - aspectos universais e culturais do gesto; - papel do gesto na evolução humana; - gesto e suas relações a outros meios/mídias; - gesto e evolução de línguas de sinal da criança; - gesto, linguagem e cognição.
Alguns links externos
Sociedades internacionais
- INTERNATIONAL SOCIETY FOR GESTURE STUDIES
International Society for gesture studies
Publicações na área / Periódicos
- GESTURE
ISSN: 1568-1475 E-ISSN: 1569-9773
Gesture
Centros de referência no desenvolvimento de pesquisa sobre o gesto
- MAX PLANCK INSTITUTE FOR PSYCHOLINGUISTICS (Nijmegen, Holanda) [ http://www.mpi.nl/ Max Planck Institute for Psycholinguistics]
http://www.mpi.nl/research/other/lc-gesture Max Planck Institute for Psycholinguistics] - GOLDIN-MEADOW LABORATORY (Chicago, U.S.A.) Goldin-Meadow Laboratory - MCNEILL LAB / CENTER FOR GESTURE AND SPEECH RESEARCH (Chicago, U.S.A.) McNeill Lab / Center for gesture and speech research
Gesture tecnology
- PIONEER & WORLD LEADER IN GESTURE RECOGNITION TECHNOLOGY
[www.GestureTek.com Pioneer & World Leader in gesture recognition technology]
Softwers para estudos do gesto
- Programa EUDICO Linguistic Annotator - ELAN
É um software livre, especialmente desenhado para a realização de experimentos psicolinguísticos desenvolvido pelo Departamento de Psicolinguística do Instituto Max Planck (Nijmegen, Holanda). Está disponível na página: http://www.mpi.nl/tools/
Referências
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