Bootstrapping Theory
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Fazendo uma análise ligeiramente diferente, Yavas (1982), p. 140, diz que ''"...a criança parece imitar apenas aquelas unidades linguísticas que nem eram inteiramente novas para ela nem estavam completamente sob seu domínio. Isto implica que a criança está ativamente processando a fala do adulto na base do seu conhecimento atual e presta atenção àqueles aspectos que ela está adquirindo no momento ".'' | Fazendo uma análise ligeiramente diferente, Yavas (1982), p. 140, diz que ''"...a criança parece imitar apenas aquelas unidades linguísticas que nem eram inteiramente novas para ela nem estavam completamente sob seu domínio. Isto implica que a criança está ativamente processando a fala do adulto na base do seu conhecimento atual e presta atenção àqueles aspectos que ela está adquirindo no momento ".'' | ||
| - | Corrêa (2008), | + | Corrêa (2008), pp. 177-178, assume uma perspectiva mais kantiana <ref> Immanuel Kant (1724-1804) </ref> e diz: |
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| + | ''"De um ponto de vista epistemológico, pode-se dizer que uma abordagem psicolinguística para a aquisição da linguagem encontra-se mais afinada com uma perspectiva kantiana acerca da viabilidade do conhecimento do que com a postura cartesiana explicitamente assumida no discurso da teoria linguística [...]. Numa visão kantiana, o aparato cognitivo humano imporia um dado modo de organização à experiência e, diante dessas possibilidades, determinadas formas de conhecimento se constituiriam. A língua seria, então, uma forma de conhecimento em grande parte determinada pela configuração biológica e funcional do aparato físico e cognitivo humano, a qual poderia ter resultado em sistemas dedicados ao processamento do material linguísitco."'' | ||
| + | Qualquer que seja a concepção assumida de formação do léxico, um modelo esquemático de língua possuirá, em algum momento, um léxico mental, "the system of vocabulary which is stored in the mind in the form of a lexical entry for each item". (Field, 2004) <ref> O sistema de vocabulário que está armazenado na mente, na forma de uma entrada lexical para cada item" ou, conf. Correa (2005, p. 132), "um aparato cognitivo que retém (a longo prazo) informação semântica, sintática (lema) e fonológica (lexema) relativa a unidades correspondentes a palavras/morfemas" e outras informações, como por exemplo a forma de escrita, que facilitam as diferentes maneiras de acesso. </ref>. | ||
| + | == ''Bootstrapping problem'' == | ||
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| + | O chamado ''bootstrapping problem'' surge da dúvida sobre quem vem primeiro, se o léxico, se a sintaxe. No dizer de Gout e Christophe (2006), "isto nos leva a uma circularidade potencial: à primeira vista, parece que o léxico é necessário à aquisição da sintaxe e que a sintaxe é necessária à aquisição do léxico". | ||
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| + | Um modelo teórico não lexicalista é o da Morfologia Distribuída (Marantz, 1997, 1999, 2001, apud Lemle, 2005; França, 2005) onde a inserção lexical é separada da computação sintática e é tardia, pois é posterior à sintaxe. Para Lemle (2005), p. 6, | ||
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| + | ''"A diferença crucial entre a teoria da Morfologia Distribuída (MD) e as teorias lexicalistas é esta: na MD os traços sintático-semânticos que entram na computação sintática não são acoplados desde o início com traços fonológicos, ao passo que nas teorias lexicalistas as unidades lexicais que são o input da sintaxe são dotadas de traços fonológicos, traços semânticos e traços formais desde o início da derivação (desde a numeração, na [http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-44501997000200005#back teoria minimalista]".'' | ||
Edição de 00h38min de 1 de Dezembro de 2009
Versão Inicial: José Olímpio de Magalhães
Curador: José Olímpio de Magalhães
Índice de conteúdo |
Da dotação para a linguagem
Quando nascemos, recebemos um sistema computacional [1] pronto para funcionar, ou seja, para receber os softwares [2] que nele instalaremos. Não conhecemos o funcionamento desse sistema, pois, numa imagem amplamente divulgada, ele veio sem o 'manual de instruções'. O que a humanidade tem feito ao longo da História é tentar reescrever esse manual, gerando, então, nossos conhecimentos, crenças, cultura, linguagem e... língua! Por exemplo, no que tange a busca de uma teoria que explique a gramática universal, como diz Chomsky [1980] (1985), p. 171, por enquanto "estamos apenas arranhando a superfície" (do cérebro).
Na literatura sobre aquisição da linguagem pela criança, um termo muito utilizado é bootstraping ou bootstrapping problem que, semelhante à linguagem da computação, refere-se a desencadear ou iniciar o processamento de acesso, no caso, a uma língua [3] . É como se recebêssemos uma botina (boot) novinha [4] na nossa medida, e a tivéssemos que calçar: vamos enfiando o pé na botina, ajeitando-o à esquerda, à direita, para baixo, para cima, procurando calçá-la da melhor forma, valendo-nos de uma pequena alça (strapp) que fica na altura do calcanhar, que nos serve de alavanca.No contexto da aquisição da linguagem, entende-se por bootstrapping "o uso de habilidades ou recursos limitados de modo a atingir habilidades, adquirir conhecimento ou dar início a um dado modo de operação, de outra ordem" (Correa, 2008, p. 173). Então, acessar, iniciar, desencadear a gramática de uma língua (ou de várias), significa acionar o processador gramatical [5] , que engloba o acesso lexical, o mecanismo de computação sintática (estrutural), a codificação semântica, a aplicação de regras morfofonológicas, a representação fonológica, constituindo um fazer linguístico.
Finalmente, calçamos a botina por inteiro, ancoramos o pé dentro dela e estamos prontos para caminhar.
O acesso lexical
Quando falamos em acesso lexical, estamos supondo que o léxico já existe, já vem embutido na mente dos bebês, como um sistema proto-conceitual [6], e que tudo o que se tem a fazer é retirar do meio as formas para preencher ou mapear conteúdos pré-existentes (processamento top-down), de dotação inata. Portanto, nessa visão, o conceito precede a forma. No entanto, poderíamos nos perguntar, seguindo França (2005), sobre quem vem primeiro - o significado ou a forma?
Numa visão interacionista, tanto o conceito quanto a forma surgem da experiência social do homem com seu meio; porém, a forma, por ser mais simples, seria adquirida primeiro e os conceitos iriam se refinando aos poucos (processamento bottom-up).
Fazendo uma análise ligeiramente diferente, Yavas (1982), p. 140, diz que "...a criança parece imitar apenas aquelas unidades linguísticas que nem eram inteiramente novas para ela nem estavam completamente sob seu domínio. Isto implica que a criança está ativamente processando a fala do adulto na base do seu conhecimento atual e presta atenção àqueles aspectos que ela está adquirindo no momento ".
Corrêa (2008), pp. 177-178, assume uma perspectiva mais kantiana [7] e diz:
"De um ponto de vista epistemológico, pode-se dizer que uma abordagem psicolinguística para a aquisição da linguagem encontra-se mais afinada com uma perspectiva kantiana acerca da viabilidade do conhecimento do que com a postura cartesiana explicitamente assumida no discurso da teoria linguística [...]. Numa visão kantiana, o aparato cognitivo humano imporia um dado modo de organização à experiência e, diante dessas possibilidades, determinadas formas de conhecimento se constituiriam. A língua seria, então, uma forma de conhecimento em grande parte determinada pela configuração biológica e funcional do aparato físico e cognitivo humano, a qual poderia ter resultado em sistemas dedicados ao processamento do material linguísitco."
Qualquer que seja a concepção assumida de formação do léxico, um modelo esquemático de língua possuirá, em algum momento, um léxico mental, "the system of vocabulary which is stored in the mind in the form of a lexical entry for each item". (Field, 2004) [8].
Bootstrapping problem
O chamado bootstrapping problem surge da dúvida sobre quem vem primeiro, se o léxico, se a sintaxe. No dizer de Gout e Christophe (2006), "isto nos leva a uma circularidade potencial: à primeira vista, parece que o léxico é necessário à aquisição da sintaxe e que a sintaxe é necessária à aquisição do léxico".
Um modelo teórico não lexicalista é o da Morfologia Distribuída (Marantz, 1997, 1999, 2001, apud Lemle, 2005; França, 2005) onde a inserção lexical é separada da computação sintática e é tardia, pois é posterior à sintaxe. Para Lemle (2005), p. 6,
"A diferença crucial entre a teoria da Morfologia Distribuída (MD) e as teorias lexicalistas é esta: na MD os traços sintático-semânticos que entram na computação sintática não são acoplados desde o início com traços fonológicos, ao passo que nas teorias lexicalistas as unidades lexicais que são o input da sintaxe são dotadas de traços fonológicos, traços semânticos e traços formais desde o início da derivação (desde a numeração, na teoria minimalista".
Notas
- ↑ "Um sistema para processar linguagem natural reúne, geralmente, alguns módulos organizados de acordo com a divisão vista nos estudos da linguística. Cada uma das etapas do processamento exige um conhecimento de natureza diferenciada sobre a língua, e as soluções propostas irão variar de acordo com a natureza dos conhecimentos envolvidos." In: verbete Linguística Computacional, neste site.
- ↑ "Software is a general term for the various kinds of programs used to operate computers and related devices." In: http://searchsoa.techtarget.com/sDefinition/0,,sid26_gci213024,00.html, acessado em 21/09/09). Traduzindo: Software é um termo geral para vários tipos de programas usados para operar computadores e dispositivos relacionados.
- ↑ É possível acessar várias línguas ao mesmo tempo, se pensarmos que todas as gramáticas estão instaladas em nosso cérebro. Tudo vai depender desse "iniciar".
- ↑ Imagem, embora não tão 'novinha', obtida em http://pt.wikipedia.org/wiki/Bootstrapping.
- ↑ É importante dizer que a gramática (competência lingüística, faculdade da linguagem) é estática, enquanto que o processamento (produção e compreensão da fala) é dinâmico, cinemático (DILLINGER, 1992). Como diz CHOMSKY (1996, publicado em 1997), “as pessoas sabem coisas e as pessoas fazem coisas”.
- ↑ Tese Inatista Forte, defendida por Jerry FODOR (1983).
- ↑ Immanuel Kant (1724-1804)
- ↑ O sistema de vocabulário que está armazenado na mente, na forma de uma entrada lexical para cada item" ou, conf. Correa (2005, p. 132), "um aparato cognitivo que retém (a longo prazo) informação semântica, sintática (lema) e fonológica (lexema) relativa a unidades correspondentes a palavras/morfemas" e outras informações, como por exemplo a forma de escrita, que facilitam as diferentes maneiras de acesso.
