Bootstrapping Theory
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Como nos relata Field (2004), certos conceitos, embora próximos, podem guiar a sintaxe, como no caso de “comer” e “alimentar”. A criança descobrirá que os dois verbos têm a mesma estrutura sintática (Verbo + Nome), só que o nome selecionado para completar um ou outro verbo terá característica diferente: comível e animado, respectivamente. Há casos, no entanto, em que, mesmo na ausência de um conceito, há a construção da estrutura sintática, como no caso de crianças cegas, que são capazes de produzir frases com “ver” e “olhar”, mesmo que lhes falte o conceito de mundo de tais palavras. | Como nos relata Field (2004), certos conceitos, embora próximos, podem guiar a sintaxe, como no caso de “comer” e “alimentar”. A criança descobrirá que os dois verbos têm a mesma estrutura sintática (Verbo + Nome), só que o nome selecionado para completar um ou outro verbo terá característica diferente: comível e animado, respectivamente. Há casos, no entanto, em que, mesmo na ausência de um conceito, há a construção da estrutura sintática, como no caso de crianças cegas, que são capazes de produzir frases com “ver” e “olhar”, mesmo que lhes falte o conceito de mundo de tais palavras. | ||
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| + | A discussão sobre o desencadear da linguagem levanta outros questionamentos: Como apreendemos e organizamos o mundo, o conhecimento? O conhecimento é adquirido ou inato? O processamento gramatical da linguagem é serial (uma coisa por vez) ou paralelo (várias ações acontecendo simultaneamente)? A apresentação de propostas em torno dessas questões foge ao objetivo dessa breve apresentação sobre ''bootstrapping''. No entanto, no desenrolar desse trabalho, insinuamos que a prosódia seria o primitivo da linguagem que conduziria à especialização paulatina do lado esquerdo do cérebro para as outras articulações gramaticais, em especial à sintaxe. Como diz Scarpa (1999), p. 256, ''“É interessante notar que o ceticismo e o otimismo com relação ao bootstrapping prosódico pendulam conforme o papel nuclear e superordenado atribuído ou não à sintaxe na aquisição da linguagem ”.'' | ||
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| + | Diante de toda essa discussão sobre o desencadear do conhecimento (da linguagem), uma coisa é certa: nascemos com uma propriedade mental muito forte de organizar o mundo que nos rodeia e de nos organizarmos dentro desse mundo, transformando tudo em linguagem. Admiramos e queremos proteger as florestas virgens, inóspitas, cheias de vegetação variada, mas, se nosso jardim estiver com mato por toda parte, uma relva exuberante, galhos crescendo em todas as direções, chamamos o jardineiro, mandamos podar a grama e os galhos das árvores e arbustos, acertar os canteiros, remexer a terra, colocar pedrinhas... e, ao final, dizemos: “agora ficou bom!” O que explica esse instinto de organização de mundo e de ações em nossas vidas? Por que o jardim assim, com a grama podada, as árvores ajustadas, a terra revolta, é melhor do que a natureza em plena efervescência? É que ele agora possui uma linguagem que lhe atribuímos. | ||
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| + | == Referências Bibliográficas == | ||
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| + | CHOMSKY, Noam. (1980). Rules and representations. New York, Columbia University Press. Traduzido por Alain Kihm (1985), Paris, Flamarion. | ||
| + | CHOMSKY, Noam. (1997). “Chomsky no Brasil”. Revista D.E.L.T.A. São Paulo, v. 13, n. especial, 229 p. | ||
| + | CORRÊA, Letícia M. Sicuro (2005). Questões de Concordância: Uma abordagem integrada para o processamento, a aquisição e o Déficit Específico da Linguagem. In: Linguística, vol. 1, no. 1, UFRJ. | ||
| + | CORRÊA, Letícia M. Sicuro (org.). (2006). Aquisição da linguagem e problemas do desenvolvimento lingüístico. Rio de Janeiro: Editora da PUC. | ||
| + | CORREA, Letícia M. Sicuro. (2008). O desencadeamento (bootstrapping) da sintaxe numa abordagem psicolinguística para a aquisição da linguagem. In: QUADROS, R.M. e FINGER, Ingrid (orgs.). Teorias de aquisição da linguagem. Florianópolis: Editora da UFSC. | ||
| + | DILLINGER, Mike. (1992). Parsing Sintático. Boletim da Abralin nº 13, p.30-42 | ||
| + | FIELD, John. (2004). Psycholinguistics: The Key Concepts. New York: Routledge. | ||
| + | FINGER, I. Processamento da Linguagem. Porto Alegre: Educat, 2005, p.91 - 110. | ||
| + | FODOR, J. D. (2002). Psycholinguistics Cannot Escape Prosody. Proceedings of the Speech Prosody Conference, (pp. 83-88). Aix-em-Provence, França. Publicado em formato eletrônico em http://www.lpl.univ-aix.fr/sp2002/pdf/fodor.pdf. e traduzido como A psicolinguística não pode escapar da prosódia. In: MAIA, M., | ||
| + | FODOR, Jerry. (1983). The modularity of mind: an essay on faculty psychology. Cambridge, MA: MIT Press.. | ||
| + | FRANÇA, Aniela I. (2005). O léxico mental em ação: muitas tarefas em poucos milisegundos. In: Linguística, vol. 1, no. 1, UFRJ. | ||
| + | GOUT, Ariel e CHRISTOPHE Anne. (2006). O papel do bootstrpping prosódico na aquisição da sintaxe e do léxico. In: CORRÊA, Letícia M. Sicuro (org.). (2006). Aquisição da linguagem e problemas do desenvolvimento lingüístico. Rio de Janeiro: Editora da PUC. | ||
| + | HARLEY, Trevor. (2001). The Psychology of Language. New York: Psychology Press. | ||
| + | LEMLE, Miriam. (2005). Mudança sintática e sufixos latinos. In: Linguística, vol. 1, no. 1, UFRJ. | ||
| + | MATSUOKA, Azussa. (2007). A marcação prosódica da posição do adjetivo no DP na fala dirigida à criança. Dissertação de Mestrado, UFJF. In: http://www.bdtd.ufjf.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=79 | ||
| + | SCARPA, Ester. (Org.). (1999). Estudos de Prosódia. Campinas: Editora da UNICAMP. | ||
| + | YAVAS, Feryal. (1982). Aquisição da linguagem: o que é e o que implica. In: Letras de Hoje, volume 15, no. 2, p. 139-162 | ||
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Edição de 01h10min de 1 de Dezembro de 2009
Versão Inicial: José Olímpio de Magalhães
Curador: José Olímpio de Magalhães
Índice de conteúdo |
Da dotação para a linguagem
Quando nascemos, recebemos um sistema computacional [1] pronto para funcionar, ou seja, para receber os softwares [2] que nele instalaremos. Não conhecemos o funcionamento desse sistema, pois, numa imagem amplamente divulgada, ele veio sem o 'manual de instruções'. O que a humanidade tem feito ao longo da História é tentar reescrever esse manual, gerando, então, nossos conhecimentos, crenças, cultura, linguagem e... língua! Por exemplo, no que tange a busca de uma teoria que explique a gramática universal, como diz Chomsky [1980] (1985), p. 171, por enquanto "estamos apenas arranhando a superfície" (do cérebro).
Na literatura sobre aquisição da linguagem pela criança, um termo muito utilizado é bootstraping ou bootstrapping problem que, semelhante à linguagem da computação, refere-se a desencadear ou iniciar o processamento de acesso, no caso, a uma língua [3] . É como se recebêssemos uma botina (boot) novinha [4] na nossa medida, e a tivéssemos que calçar: vamos enfiando o pé na botina, ajeitando-o à esquerda, à direita, para baixo, para cima, procurando calçá-la da melhor forma, valendo-nos de uma pequena alça (strapp) que fica na altura do calcanhar, que nos serve de alavanca.No contexto da aquisição da linguagem, entende-se por bootstrapping "o uso de habilidades ou recursos limitados de modo a atingir habilidades, adquirir conhecimento ou dar início a um dado modo de operação, de outra ordem" (Corrêa, 2008, p. 173). Então, acessar, iniciar, desencadear a gramática de uma língua (ou de várias), significa acionar o processador gramatical [5] , que engloba o acesso lexical, o mecanismo de computação sintática (estrutural), a codificação semântica, a aplicação de regras morfofonológicas, a representação fonológica, constituindo um fazer linguístico.
Finalmente, calçamos a botina por inteiro, ancoramos o pé dentro dela e estamos prontos para caminhar.
O acesso lexical
Quando falamos em acesso lexical, estamos supondo que o léxico já existe, já vem embutido na mente dos bebês, como um sistema proto-conceitual [6], e que tudo o que se tem a fazer é retirar do meio as formas para preencher ou mapear conteúdos pré-existentes (processamento top-down), de dotação inata. Portanto, nessa visão, o conceito precede a forma. No entanto, poderíamos nos perguntar, seguindo França (2005), sobre quem vem primeiro - o significado ou a forma?
Numa visão interacionista, tanto o conceito quanto a forma surgem da experiência social do homem com seu meio; porém, a forma, por ser mais simples, seria adquirida primeiro e os conceitos iriam se refinando aos poucos (processamento bottom-up).
Fazendo uma análise ligeiramente diferente, Yavas (1982), p. 140, diz que "...a criança parece imitar apenas aquelas unidades linguísticas que nem eram inteiramente novas para ela nem estavam completamente sob seu domínio. Isto implica que a criança está ativamente processando a fala do adulto na base do seu conhecimento atual e presta atenção àqueles aspectos que ela está adquirindo no momento ".
Corrêa (2008), pp. 177-178, assume uma perspectiva mais kantiana [7] e diz:
"De um ponto de vista epistemológico, pode-se dizer que uma abordagem psicolinguística para a aquisição da linguagem encontra-se mais afinada com uma perspectiva kantiana acerca da viabilidade do conhecimento do que com a postura cartesiana explicitamente assumida no discurso da teoria linguística [...]. Numa visão kantiana, o aparato cognitivo humano imporia um dado modo de organização à experiência e, diante dessas possibilidades, determinadas formas de conhecimento se constituiriam. A língua seria, então, uma forma de conhecimento em grande parte determinada pela configuração biológica e funcional do aparato físico e cognitivo humano, a qual poderia ter resultado em sistemas dedicados ao processamento do material linguísitco."
Qualquer que seja a concepção assumida de formação do léxico, um modelo esquemático de língua possuirá, em algum momento, um léxico mental, "the system of vocabulary which is stored in the mind in the form of a lexical entry for each item". (Field, 2004) [8].
Bootstrapping problem
O chamado bootstrapping problem surge da dúvida sobre quem vem primeiro, se o léxico, se a sintaxe. No dizer de Gout e Christophe (2006), "isto nos leva a uma circularidade potencial: à primeira vista, parece que o léxico é necessário à aquisição da sintaxe e que a sintaxe é necessária à aquisição do léxico".
Um modelo teórico não lexicalista é o da Morfologia Distribuída (Marantz, 1997, 1999, 2001, apud Lemle, 2005; França, 2005) onde a inserção lexical é separada da computação sintática e é tardia, pois é posterior à sintaxe. Para Lemle (2005), p. 6,
"A diferença crucial entre a teoria da Morfologia Distribuída (MD) e as teorias lexicalistas é esta: na MD os traços sintático-semânticos que entram na computação sintática não são acoplados desde o início com traços fonológicos, ao passo que nas teorias lexicalistas as unidades lexicais que são o input da sintaxe são dotadas de traços fonológicos, traços semânticos e traços formais desde o início da derivação (desde a numeração, na teoria minimalista".
O processamento prosódico tem sido proposto como uma forma de minimizar essa 'força' da sintaxe (e do léxico?), no sentido de que o bebê pode depreender a sintaxe pela Prosódia da língua, principalmente em situações de ambiguidade (Fodor, 2002). Gout e Christophe (2006), falando sobre o papel do bootstrapping prosódico na aquisição da sintaxe e do léxico, conduziram experimentos que comprovam que bebês da mais tenra idade [9] podem depreender a ordem das palavras na sua língua nativa e segmentar palavras do fluxo da fala, fazendo uso do contorno prosódico de palavras isoladas, assim como de fronteiras prosódicas.
Considerando que: (a)a ordem das palavras é uma propriedade específica de cada língua, tendo, portanto, de ser identificada pela criança na aquisição da linguagem, (b)as línguas podem diferenciar-se quanto à direcionalidade do Núcleo (núcleo-complemento (ex. francês, inglês, português) complemento-núcleo (ex. turco, japonês), (c)a proeminência na frase fonológica permite distinguir línguas com núcleo em posição inicial de línguas com núcleo em posição final,
as autoras conduziram um experimento com 16 bebês franceses de 6 a 12 semanas de idade. O procedimento empregado foi o de alteração na Sucção Não-Nutritiva (a apresentação das sentenças é contingencial à sucção de alta amplitude dos bebês), mediante: Alteração Experimental -> troca de língua; Alteração de controle -> mudança de uma sentença para outra na mesma língua. Os bebês foram expostos à prosódia do francês (núcleo-complemento) e à prosódia do turco (complemento-núcleo), através de 40 pares de sentenças perfeitamente controladas quanto ao número de sílabas, à posição das fronteiras de palavras, de acento tônico e das fronteiras de frases fonológicas e entoacionais. As frases foram gravadas, por um único falante, em holandês, mas nas duas prosódias.
Os resultados apontaram que houve uma desabituação (na sucção) significativamente maior na condição em que há mudança de língua do que na condição de controle. As autoras concluíram que os bebês perceberam a diferença entre francês e turco, provavelmente com base na diferença prosódica associada à proeminência em frases fonológicas, e que estes resultados sustentam a hipótese de que bebês podem usar esse tipo de informação prosódica para desencadear (bootstrap) a aquisição da ordem de palavras na língua (mesmo sem ainda conhecê-las). Portanto, parece que a habilidade de bebês perceberem algumas propriedades da estrutura prosódica pode facilitar a aquisição tanto do léxico como de alguns aspectos da sintaxe, ou seja, a prosódia tem o papel de desencadear a aquisição.
Tipos de bootstrapping
Pelos dados do experimento resumido acima, um exemplo de bootstrapping prosódico, pudemos ver que, ao tentar 'calçar' a gramática de uma língua, a partir de enunciados linguísticos gerados na fala, no mundo real, a criança mapeia o léxico, a morfofonologia, a morfossintaxe e outras informações gramaticais e sua inter-relação. Apresentaremos, abaixo, três exemplos do dia-a-dia de manifestação de desencadeamento da gramática e, em seguida, alguns outros casos citados na literatura sobre o assunto.
Exemplo 1
O primeiro vem de uma criança que, por volta de 1:06 (um ano e seis meses), sempre que a mãe se aprontava para sair, ficava agitada e andava atrás da mãe, repetindo: "conque... conque... conque...". É que, num emaranhado de frases que a mãe dizia quando estava se aprontando, a criança percebia algo que se salientava: "Com que sapato eu vou? Com que vestido? Com que batom? Com que?...". Conclusão, na cabecinha infantil: "conque", com tal saliência, nessa entoação, com este ritual, significa sair para passear. Como podemos classificar esse bootstrapping? Talvez, múltiplo: prosódico, morfofonológico, morfossintático, semântico-pragmático. O que teria vindo primeiro?
Exemplo 2
O outro exemplo vem de uma situação de interlíngua: uma criança, nascida nos Estados Unidos, com pai brasileiro, tem o inglês como L1, mas mantêm contatos frequentes, pela internet, com os avôs, residentes no Brasil. O nome da criança é Riley, pronunciado [ɻajli], com um "r" retroflexo. Depois de algum tempo, ela diz para o pai que o nome dela no Brasil é Ley [li], pois sempre que o avô vai conversar com ela começa assim: "Hi, Ley!", foneticamente [haj li] (com um “r” aspirado glotal), o equivalente a "Oi, Ley!". Esse é um exemplo de bootstrapping fonológico.
Exemplo 3
Dissemos (cf. nota 8) que o processamento da linguagem pode servir-se de outras informações como, por exemplo, a forma de escrita, que iniciaria outras maneiras de acesso à gramática da língua. Esse exemplo vem de um menino de quase seis anos, que está começando a lidar com as letras. Quando lhe perguntam as letras de algo falado, por exemplo, "sapo", ele diz: ÉSSE-A-PÊ-Ó. Ao lhe perguntarem quais as letras do nome de uma tia, que se chama Marta, ele disse: EME-A-A-TÊ-A. Há uma consciência de que a primeira sílaba de Marta é pesada (longa, com duas moras) e a maneira de expressar isso diante do desconhecido (o "r" de final de sílaba) é duplicar a vogal. Esse mesmo menino, dentro de um assunto de time de futebol, ao lhe perguntarem as letras de "galo" ("g" é uma letra complicada para a criança), ele responde CÊ-A-EME (CAM, iniciais de Clube Atlético Mineiro), ou seja, o conceito é o mesmo e, portanto, são sinônimos e se equivalem graficamente. Esse bootstrap tem a ver com aquela visão kantiana proposta por Corrêa (2008) de que "o aparato cognitivo humano imporia um dado modo de organização à experiência".
Bootstrapping sintático
A capacidade de inferir o sentido através da sintaxe é chamada de bootstrapping sintático. Adaptamos um exemplo de Harley (2001), que nos mostra que, diante de um verbo cujo significado desconhece, a criança pode, ainda assim, analisando as relações possíveis entre as outras palavras que já conhece inferir que se trata de um verbo e que, naquela situação pode significar tal coisa. Assim, diante de uma frase como “Está me portando uma carta?”, onde a criança não sabe o que é “portando”, ela infere que se trata de um verbo transitivo direto; que os verbos que podem ocupar esse contexto são poucos; que são verbos indicadores de uma ação feita em proveito de alguém; que vários verbos são imediatamente descartados nessa situação (como “lendo”, “jogando”, “rasgando”). Assim, ela pode, através de tais deduções, chegar ao sentido de um verbo de movimento como “trazendo”, “carregando”, “conduzindo”. Sem dúvida, há um contexto pragmático atuando aí também, além de um prosódico, revelando uma pergunta, mas parece que o destaque, nesse caso, é para o contexto sintático.
Outro exemplo de iniciação sintática aparece quando deixamos frases para a criança completar. Ela a completará com a categoria gramatical correta para o contexto. Assim, se lhe dissermos “O menino é...”, provavelmente ela dirá um adjetivo e, não, outra classe de palavra.
Bootstrapping semântico
Quando a criança usa seu conhecimento de mundo para criar relações sintáticas, acontece o inverso do que explicamos acima. O exemplo é adaptado de Field (2004): suponhamos que a criança tenha visto e tomado conhecimento de um coelho e de um pato. Se em um desenho animado há a frase “o coelho caça o pato”, a criança saberá distinguir agente de paciente, inclusive se a situação se reverter para essa frase “o pato caça o coelho”.
Além dos papéis de agente e paciente, propõe-se que a criança já nasça capacitada para distinguir noções como verbo e nome, como classes distintas de palavras. Às vezes pode acontecer uma superposição desses conceitos, quando uma única palavra serve para indicar tanto a ação (verbo) quanto o nome da ação (nome). Assim, ao ouvir o barulho do interruptor para apagar/acender a lâmpada, a criança criará e passará a usar uma palavra retratando esse barulho e essa ação, dizendo a frase “Teco!”, quer seja para apagar, quer para acender.
Como nos relata Field (2004), certos conceitos, embora próximos, podem guiar a sintaxe, como no caso de “comer” e “alimentar”. A criança descobrirá que os dois verbos têm a mesma estrutura sintática (Verbo + Nome), só que o nome selecionado para completar um ou outro verbo terá característica diferente: comível e animado, respectivamente. Há casos, no entanto, em que, mesmo na ausência de um conceito, há a construção da estrutura sintática, como no caso de crianças cegas, que são capazes de produzir frases com “ver” e “olhar”, mesmo que lhes falte o conceito de mundo de tais palavras.
Considerações Finais
A discussão sobre o desencadear da linguagem levanta outros questionamentos: Como apreendemos e organizamos o mundo, o conhecimento? O conhecimento é adquirido ou inato? O processamento gramatical da linguagem é serial (uma coisa por vez) ou paralelo (várias ações acontecendo simultaneamente)? A apresentação de propostas em torno dessas questões foge ao objetivo dessa breve apresentação sobre bootstrapping. No entanto, no desenrolar desse trabalho, insinuamos que a prosódia seria o primitivo da linguagem que conduziria à especialização paulatina do lado esquerdo do cérebro para as outras articulações gramaticais, em especial à sintaxe. Como diz Scarpa (1999), p. 256, “É interessante notar que o ceticismo e o otimismo com relação ao bootstrapping prosódico pendulam conforme o papel nuclear e superordenado atribuído ou não à sintaxe na aquisição da linguagem ”.
Diante de toda essa discussão sobre o desencadear do conhecimento (da linguagem), uma coisa é certa: nascemos com uma propriedade mental muito forte de organizar o mundo que nos rodeia e de nos organizarmos dentro desse mundo, transformando tudo em linguagem. Admiramos e queremos proteger as florestas virgens, inóspitas, cheias de vegetação variada, mas, se nosso jardim estiver com mato por toda parte, uma relva exuberante, galhos crescendo em todas as direções, chamamos o jardineiro, mandamos podar a grama e os galhos das árvores e arbustos, acertar os canteiros, remexer a terra, colocar pedrinhas... e, ao final, dizemos: “agora ficou bom!” O que explica esse instinto de organização de mundo e de ações em nossas vidas? Por que o jardim assim, com a grama podada, as árvores ajustadas, a terra revolta, é melhor do que a natureza em plena efervescência? É que ele agora possui uma linguagem que lhe atribuímos.
Notas
- ↑ "Um sistema para processar linguagem natural reúne, geralmente, alguns módulos organizados de acordo com a divisão vista nos estudos da linguística. Cada uma das etapas do processamento exige um conhecimento de natureza diferenciada sobre a língua, e as soluções propostas irão variar de acordo com a natureza dos conhecimentos envolvidos." In: verbete Linguística Computacional, neste site.
- ↑ "Software is a general term for the various kinds of programs used to operate computers and related devices." In: http://searchsoa.techtarget.com/sDefinition/0,,sid26_gci213024,00.html, acessado em 21/09/09). Traduzindo: Software é um termo geral para vários tipos de programas usados para operar computadores e dispositivos relacionados.
- ↑ É possível acessar várias línguas ao mesmo tempo, se pensarmos que todas as gramáticas estão instaladas em nosso cérebro. Tudo vai depender desse "iniciar".
- ↑ Imagem, embora não tão 'novinha', obtida em http://pt.wikipedia.org/wiki/Bootstrapping.
- ↑ É importante dizer que a gramática (competência lingüística, faculdade da linguagem) é estática, enquanto que o processamento (produção e compreensão da fala) é dinâmico, cinemático (DILLINGER, 1992). Como diz CHOMSKY (1996, publicado em 1997), “as pessoas sabem coisas e as pessoas fazem coisas”.
- ↑ Tese Inatista Forte, defendida por Jerry FODOR (1983).
- ↑ Immanuel Kant (1724-1804)
- ↑ O sistema de vocabulário que está armazenado na mente, na forma de uma entrada lexical para cada item" ou, conf. Correa (2005, p. 132), "um aparato cognitivo que retém (a longo prazo) informação semântica, sintática (lema) e fonológica (lexema) relativa a unidades correspondentes a palavras/morfemas" e outras informações, como por exemplo a forma de escrita, que facilitam as diferentes maneiras de acesso.
- ↑ Sobre a percepção dos contornos prosódicos da fala no ambiente intra-uterino, consultar Matsuoka (2007), p. 66, item 3.5. In: http://www.bdtd.ufjf.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=79
Referências Bibliográficas
CHOMSKY, Noam. (1980). Rules and representations. New York, Columbia University Press. Traduzido por Alain Kihm (1985), Paris, Flamarion. CHOMSKY, Noam. (1997). “Chomsky no Brasil”. Revista D.E.L.T.A. São Paulo, v. 13, n. especial, 229 p. CORRÊA, Letícia M. Sicuro (2005). Questões de Concordância: Uma abordagem integrada para o processamento, a aquisição e o Déficit Específico da Linguagem. In: Linguística, vol. 1, no. 1, UFRJ. CORRÊA, Letícia M. Sicuro (org.). (2006). Aquisição da linguagem e problemas do desenvolvimento lingüístico. Rio de Janeiro: Editora da PUC. CORREA, Letícia M. Sicuro. (2008). O desencadeamento (bootstrapping) da sintaxe numa abordagem psicolinguística para a aquisição da linguagem. In: QUADROS, R.M. e FINGER, Ingrid (orgs.). Teorias de aquisição da linguagem. Florianópolis: Editora da UFSC. DILLINGER, Mike. (1992). Parsing Sintático. Boletim da Abralin nº 13, p.30-42 FIELD, John. (2004). Psycholinguistics: The Key Concepts. New York: Routledge. FINGER, I. Processamento da Linguagem. Porto Alegre: Educat, 2005, p.91 - 110. FODOR, J. D. (2002). Psycholinguistics Cannot Escape Prosody. Proceedings of the Speech Prosody Conference, (pp. 83-88). Aix-em-Provence, França. Publicado em formato eletrônico em http://www.lpl.univ-aix.fr/sp2002/pdf/fodor.pdf. e traduzido como A psicolinguística não pode escapar da prosódia. In: MAIA, M., FODOR, Jerry. (1983). The modularity of mind: an essay on faculty psychology. Cambridge, MA: MIT Press.. FRANÇA, Aniela I. (2005). O léxico mental em ação: muitas tarefas em poucos milisegundos. In: Linguística, vol. 1, no. 1, UFRJ. GOUT, Ariel e CHRISTOPHE Anne. (2006). O papel do bootstrpping prosódico na aquisição da sintaxe e do léxico. In: CORRÊA, Letícia M. Sicuro (org.). (2006). Aquisição da linguagem e problemas do desenvolvimento lingüístico. Rio de Janeiro: Editora da PUC. HARLEY, Trevor. (2001). The Psychology of Language. New York: Psychology Press. LEMLE, Miriam. (2005). Mudança sintática e sufixos latinos. In: Linguística, vol. 1, no. 1, UFRJ. MATSUOKA, Azussa. (2007). A marcação prosódica da posição do adjetivo no DP na fala dirigida à criança. Dissertação de Mestrado, UFJF. In: http://www.bdtd.ufjf.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=79 SCARPA, Ester. (Org.). (1999). Estudos de Prosódia. Campinas: Editora da UNICAMP. YAVAS, Feryal. (1982). Aquisição da linguagem: o que é e o que implica. In: Letras de Hoje, volume 15, no. 2, p. 139-162
