Efeito de FreqÌência - Enciclopédia Virtual de Psicolinguística

Efeito de FreqÌência

Versão Inicial: Leonardo Almeida, Leonardo Araújo,Marcela Corrêa, Rosana Passos, Tereza Lara

Curador: Maria Luiza Cunha Lima, Laboratório Virtual de Psicolingüística, Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais


Índice de conteúdo


Definição

Palavras que tem maior freqüência de ocorrência são reconhecidas mais rapidamente do que palavras infreqüentes (Forster & Chambers, 1973; Rubenstein, Garfield, Millikan, 1970; Scarborough D. L., Cortese, Scarborough H. S, 1977; Whaley, 1978). Além disso, o som de palavras de alta freqüência é mais facilmente identificado quando a relação sinal ruído é baixa (Savin, 1963). Essa vantagem em termos de processamento, para as palavras de alta freqüência, é conhecida como efeito de freqüência.

A freqüência de ocorrência das palavras em uma língua é determinada a partir das construções de corpora. Os corpora podem ser de fala ou de escrita. Para o português brasileiro contemporâneo não existe nenhum grande corpus de fala que seja público. Contudo, existem diversos corpora de escrita públicos. Dentre eles destacam-se o Corpus do NILC e o Banco do Português .


Metodologias de avaliação do efeito de freqüência

O efeito de freqüência em uma determinada língua pode ser avaliado através de tarefas de acesso lexical ou de experimentos de naming. Esses testes são capazes de medir o tempo de reação dos sujeitos a palavras muito ou pouco freqüentes e a logatomas. Logatomas são seqüencias de letras desprovidas de significado que obedecem as restrições ortográficas de uma língua e, sendo assim, podem ser pronunciadas.

Durantes esses testes, seqüencias de letras são apresentadas em uma tela. Em tarefas de acesso lexical, os participantes decidem se o estímulo visual apresentado é uma palavra ou um logatoma ao pressionar um botão. O tempo de reação medido corresponde à diferença de tempo entre a apresentação do estímulo e o acionamento do botão. Já em experimentos de naming, os sujeitos são instruídos a pronunciar a seqüência de letras apresentada o mais rapidamente possível. O período entre a apresentação do estímulo e o início do vozeamento corresponde ao tempo de reação.


Breve Revisão da Literatura

Em um estudo clássico de acesso lexical, Rubenstein, Garfield e Millikan (1970) submeteram 39 sujeitos a uma tarefa que tinha o objetivo de investigar o quão rápido eles determinariam se certas seqüências de letras formariam palavras. A tarefa dos participantes consistia em pressionar um botão “sim”, quando a seqüência de letras formasse uma palavra, ou um botão “não”, quando a seqüência de letras formasse um logatoma. No total, os participantes foram apresentados a 3 grupos distintos de estímulos: palavras homógrafas, ou seja, com vários sentidos, palavras não homógrafas e logatomas. Os grupos incluíam palavras que variavam em função da alta ou baixa freqüência de ocorrência no inglês norte-americano. Em resumo, os resultados desse estudo indicaram que (1) as palavras foram mais rapidamente reconhecidas do que os logatomas; (2) o tempo de reconhecimento de palavras foi significativamente menor para as palavras de alta freqüência do que para palavras de baixa freqüência, indicando claramente o efeito de freqüência.

Em outro estudo, Forster e Chambers (1973) obtiveram resultados semelhantes utilizando a técnica de naming. Nesse estudo, 15 palavras de baixa freqüência, 15 palavras de alta freqüência e 30 logatomas foram apresentados a 3 grupos de 10 sujeitos. O primeiro grupo realizou a tarefa de naming, ou seja, foi instruído a pronunciar o mais rapidamente possível a seqüência de letras apresentada. O segundo grupo foi instruído a somente pronunciar a palavra após um alarme sonoro. Esse grupo foi utilizado apenas no controle da precisão do instrumento de medida. Por último, o terceiro grupo realizou a tarefa de decisão lexical e, sendo assim, seus integrantes foram instruídos a pressionar um botão “sim” caso o estímulo correspondesse a uma palavra e um botão “não” caso o estímulo correspondesse a um logatoma. Os resultados do experimento apontam que tanto na tarefa de naming quanto na tarefa de decisão lexical palavras de alta freqüência são reconhecidas significativamente mais rapidamente do que palavras de baixa freqüência.

Ainda no sentido de confirmar a robustez do efeito de freqüência, Whaley (1978) realizou um experimento de decisão lexical controlando diversas variáveis: tamanho da palavra em termos de sílabas, letras e fonemas, freqüências das letras presentes na palavra, freqüência de ocorrência da palavra, concretude, significância, idade de aquisição. Os resultados obtidos indicam claramente que a variável que explica melhor a variação do tempo de resposta ao estímulo é a freqüência de ocorrência das palavras.


Modelos de acesso lexical

Existem duas classes de modelos que buscam explicar o acesso lexical, os modelos seriais e os modelos paralelos. Devido a sua robustez, o efeito de freqüência tem papel fundamental nas duas classes de modelos.


Modelo Serial

Um modelo clássico que serve de base para diversos modelos seriais é apresentado em Forster (1976). No modelo proposto por Forster existem três formas de acesso ao léxico: a via ortográfica, a via fonológica e a via semântica (Figura 1). Cada um dos arquivos de acesso possui uma série de códigos vinculados a um ponteiro para o arquivo principal. A entrada para uma palavra no arquivo principal contém todas as informações que se possui sobre a mesma. Desta maneira, para se acessar uma palavra no arquivo principal deve-se inicialmente encontrar o código para palavra nos arquivos de acesso, localizar o ponteiro correspondente e, em seguida, recuperar as informações do arquivo principal.

Os códigos nos arquivos de acesso são agrupados em categorias. Deste modo, o primeiro estágio do acesso lexical consiste na determinação da categoria a qual a palavra pertence. Dentro das categorias, as palavras estão organizadas de acordo com sua freqüência de ocorrência. Dessa maneira, as palavras mais freqüentes são listadas antes das palavras menos freqüentes. Esse fato fornece uma explicação para o efeito de freqüência, já que ao se acessar palavras mais freqüentes percorre-se um número menor de palavras. Com efeito, o acesso a palavras mais freqüentes é mais rápido do que o acesso a palavras menos freqüentes.



Figura 1 – Modelo de acesso lexical serial. (Baseado em Forster, 1976)
Figura 1 – Modelo de acesso lexical serial. (Baseado em Forster, 1976)


Modelo Paralelo

Um modelo paralelo seminal, o “logogen” é descrito em Morton (1969). O nome do modelo deriva do hibridismo entre o vocábulo grego “logo”- palavra - e latino “gen”– nascimento. O logogen é um dispositivo que aceita informação sensorial de sistemas envolvidos na percepção lingüística (Figura 2). Cada logogen é definido pela informação que é capaz de ativá-lo e pela resposta que essa ativação produz. As informações capazes de ativar um logogen podem ser semânticas, visuais ou acústicas. Quando o conjunto dessas informações atinge um limiar num determinado logogen, a resposta é ativada e armazenada no buffer de saída. Essa resposta pode então servir para realimentar o sistema ou emergir como a palavra buscada.

Os logogens associados a palavras com maior freqüência de ocorrência têm um liminar de ativação mais baixo e, sendo assim, precisam de menos informações para serem ativados. Desta forma, palavras com maior freqüência de ocorrência apareceriam na saída do modelo mais rapidamente do que palavras de menor freqüência de ocorrência.


Figura 2 – Modelo de acesso lexical paralelo. (Baseado em Morton, 1969)
Figura 2 – Modelo de acesso lexical paralelo. (Baseado em Morton, 1969)


Referências Bibliográficas

FORSTER K. I.; CHAMBERS S. M. Lexical access and naming time. Journal of Verbal Learning and Behavior, v. 12, p. 627-635, 1973.

FORSTER K. I. Accessing the mental lexicon. Em: R.J.Wales e E.Walker (Eds.), New Approaches to Language Mechanisms, p. 257-287. Amsterdam: North-Holland, 1976.

MORTON J. Interaction of information in word recognition. Psychological Review, v. 76, n. 2, 165-178, 1969.

RUBENSTEIN H.; GARFIELD L.; MILLIKAN J. A. Homographics entries in the internal lexicon. Journal of Verbal Learning and Behavior, v. 9, p. 487-494, 1970.

SAVIN H. B. Word-Frequency Effect and Errors in the Perception of Speech. The Journal of The Acoustical Society of America, V. 35, N. 2, Fev. 1963.

SCARBOROUGH D. L.; CORTESE C.; SCARBOROUGH H. S. Frequency and Repetition Effects in Lexical Memory. Journal of Experimental Psychology: Human Perception and Performance, v. 3, n. 1, fev. 1977.

WHALEY, C. P. Word-Nonword Classification Time. Journal of Verbal Learning and Behavior, v. 17, p. 143-154, 1978.