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Eventos

Versão Inicial: Renato Miguel Basso

Curador: Renato Miguel Basso


Índice de conteúdo


Introdução

Embora seja possível encontrar considerações que tratam eventos como algum tipo de entidade desde a antiguidade, a reflexão filosófica que dá origem à noção de eventos tal como ela é utilizada nas análises linguísticas origina-se na obra do filósofo americano Donald Davidson (1917-2003), mais especificamente no seu texto “The Logical Form of Action Sentences”, de 1967.

O título do texto de Davidson marca uma distinção que as análises linguísticas podem ignorar, que é aquela entre ações e eventos: ações envolvem algum tipo de controle e/ou agentividade e os eventos não necessariamente. Assim, erguer um braço pode ser um evento, mas acenar para alguém com um levantamento do braço é uma ação. Como em análise linguística tal distinção não é vital, e quando necessário ela é indicada pela escolha de diferentes papéis temáticos, trataremos ação e evento como termos sinônimos.

A ideia que Davidson expõe naquele texto é que as sentenças de ação, ou melhor, os verbos de ação, introduzem na sentença, para além de seus argumentos esperados (sujeito e objeto, por exemplo), um outro argumento, que se referiria a uma outra entidade, a um evento. Um movimento como esse não apenas postula que os verbos de ação têm um argumento superficialmente “invisível”, mas também aumenta a ontologia no sentido de que nos obriga a contar não só com o tipo de indivíduos habitualmente reconhecidos (pessoas e objetos), mas também com indivíduos de um novo tipo, os eventos. Para apreciar o poder da proposta davidsoniana, é necessário atentar para alguns detalhes de forma lógica, como, novamente, o nome do texto de Davidson indica. Em lógica clássica, sem eventos, a sentença (1) teria como forma lógica (1a); (1b) é a forma lógica de (1) na chamada abordagem davidsoniana e (1c) na abordagem neo-davidsonia (Parsons, 1990), que incorpora a noção de papéis temáticos:

(1) João falou com Maria

(1a) FALAR-COM(j,m) = João e Maria estão na extensão do predicado FALAR-COM

Falhou ao checar gramática(parse) (Ocorreram problemas na criação ou escrita no directorio temporário math): \exists(x)


(FALAR-COM(x,j,m)) = há um evento x, tal que x é um evento de FALAR-COM que relaciona João e Maria

(1c) Falhou ao checar gramática(parse) (Ocorreram problemas na criação ou escrita no directorio temporário math): \exists(e)

(FALAR-COM(e)Falhou ao checar gramática(parse) (Ocorreram problemas na criação ou escrita no directorio temporário math): \wedge

AGENTE(j)Falhou ao checar gramática(parse) (Ocorreram problemas na criação ou escrita no directorio temporário math): \wedge PACIENTE(m)) = existe um evento e, tal e é um evento de FALAR-COM e João é o agente do evento 'e' e Maria é o paciente do evento 'e'

A fórmula representada em (1a) fala apenas dos indivíduos, 'João' e 'Maria', representados respectivamente por 'j' e 'm' e conta com o predicado FALAR-COM; por sua vez, (1b) e (1c) falam de mais um indivíduo, o evento 'e' (ou ‘x’ em (1b)), que é um evento de 'falar com'. É com relação a essa terceira entidade que surgem os problemas ontológico-metafísicos: qual é o estatuto metafísico dos eventos? Quais são suas condições de identidade e individualidade? Quando dois eventos são iguais ou diferentes? Mesmo com tais questões ainda por serem respondidas, a proposta de Davidson dá conta de vários problemas que as sentenças de ação tradicionalmente apresentam, como o número variável de argumentos que essas sentenças aparentemente têm (o problema da n-adicidade), a causalidade, a agentividade, etc.

O texto de Davidson data de 1967, porém, a entrada de suas ideias para a linguística é mais tardia, entre o fim da década de 1970 e o começo da de 1980; salvo alguma imprecisão, é com os trabalhos de Bach (1980, 1981) e Higginbotham (1983) que os eventos passam definitivamente a fazer parte do aparato explicativo da semântica (e da sintaxe) das línguas naturais. A partir de então, o leque de problemas que passaram a ser tratados mediante a noção de eventos aumentou em muito: atualmente, além do que mencionamos no parágrafo acima, a noção de evento é mobilizada para tratar não apenas de problemas de aspecto, acionalidade e outros no interior do que podemos chamar de domínio tempo-aspectual, mas também de problemas que envolvem nominalizações, verbos de percepção, a semântica de relações explicativas e de desculpas, etc. Particularmente interessante, é o caso das nominalizações; tomemos as sentenças abaixo:

(2a) Uma bomba explodiu no Afeganistão. (2b) Uma explosão de bomba no Afeganistão.

Segundo a abordagem neo-davidsoniana, tanto (2a) quanto (2b) teriam a mesma forma lógica:

(2c)Falhou ao checar gramática(parse) (Ocorreram problemas na criação ou escrita no directorio temporário math): \exists(e)\exists(x)

(EXPLODIR(e) Falhou ao checar gramática(parse) (Ocorreram problemas na criação ou escrita no directorio temporário math): \wedge

TEMA(x) Falhou ao checar gramática(parse) (Ocorreram problemas na criação ou escrita no directorio temporário math): \wedge BOMBA(x))Falhou ao checar gramática(parse) (Ocorreram problemas na criação ou escrita no directorio temporário math): \wedge EM(e, Afeganistão))= existe um evento e, tal QUE e é um evento de EXPLODIR e existe um x, tal que x é uma bomba; x é tema de e e e aconteceu no Afeganistão

Com (2c) capturamos a intuição de que (2a) e (2b), a princípio, significam a mesma coisa, e explicamos tal fato.


Argumentos que favorecem uma ontologia de eventos

A intuição de que os eventos fazem parte do inventário do mundo é muito forte, mesmo que não o seja à primeira vista. Na fronteira entre filosofia, lógica e linguística, são dois os principais argumentos para querer que os eventos, ao lado de objetos e propriedades, estejam presentes no “inventário do mundo” (cf. Macdonald, 2005, pp. 181-186); uma primeira formulação deles pode ser: 1) algumas sentenças parecem implicar\indicar\requerer a existência de eventos ao falar explicitamente de eventos; 2) com uma ontologia de eventos podemos lidar com o problema da n-adicidade variável ou da poliadicidade de sentenças que envolvem eventos.

Uma apreciação melhor de como procede o primeiro argumento pode ser a seguinte: algumas sentenças pressupõem normalmente a existência de objetos, e nós aceitamos que alguns desses objetos são reais. Às vezes, certos mecanismos gramaticais muito parecidos são mobilizados para falar de coisas que não são objetos, mas compartilham algumas propriedades com os objetos. Chegamos assim a vislumbrar objetos de um tipo particular, os eventos. Como exemplo de sentenças que apóiam o primeiro argumento, temos:

(3) João viu a explosão do vulcão.

(4) Os meninos foram embora depois do cantar do hino.

(5) João passou manteiga no pão ontem. Eu soube que ele fez isso no banheiro.

Os termos em itálico parecem todos pressupor (num sentido não técnico) uma entidade que não é um objeto. Se a sentença (3), por exemplo, tratasse de “cadeiras”, como em “João viu a cadeira”, poderíamos associar uma pressuposição de existência para a entidade “(a) cadeira”, e esperar que (pelo menos) uma cadeira de fato exista. O mesmo raciocínio se dá, mutatis mutandis, para “a explosão do vulcão”. Haveria aqui mais um passo a ser dado ainda: argumentar não só que “a explosão do vulcão” tem uma referência, mas que essa referência é um evento e não um objeto, e uma maneira de fazer isso é apelar, por exemplo, para propriedades seletivas de predicados, ou seja, utilizar a ideia de que os predicados selecionam os seus argumentos semanticamente e operar então com predicados que demandem ou selecionam eventos. Um caso óbvio seria o predicado “acontecer”, que se combina exclusivamente com eventos, como atestam as sentenças:

(6a) ?? A cadeira aconteceu ontem.

(6b) A explosão do vulcão aconteceu ontem.

Se o primeiro argumento leva em conta a nossa intuição de que certas expressões lingüísticas se referem a eventos, o segundo argumento tem por função resolver, por assim dizer, um problema técnico: a n-adicidade variável de sentenças de ação. Esse problema pode ser assim exemplificado: a formalização em cálculo de primeira ordem, sem eventos, para as sentenças (7), (8) e (9) resulta em (7b), (8b) e (9b):

(7) João passou manteiga no pão com a faca de manhã.

(7b)PASSAR5(joão,manteiga,pão,faca,manhã)

(8) João passou manteiga no pão de manhã.

(8b)PASSAR4(joão,manteiga,pão,manhã)

(9) João passou manteiga no pão.

(9b)PASSAR3(joão,manteiga,pão)

Intuitivamente, sabemos que se (7) é o caso (i.e., é verdadeira), então necessariamente o é (8) e (9); ou seja, não é possível que João tenha passado manteiga no pão com a faca de manhã e ao mesmo tempo João não ter passado manteiga no pão de manhã (tratando-se, obviamente, do mesmo evento). Nesse mesmo sentido, se (8) é o caso, então o é (9), mas não (7): pode ser o caso que João tenha passado manteiga no pão de manhã, mas não que João tenha passado manteiga no pão com a faca de manhã – ele pode ter usado uma espátula. Por sua vez, se (9) é verdadeira, não temos garantia nem (8) nem que (7) também o são.

Contudo, com a formalização oferecida para as sentenças acima, não há como capturar tal intuição, pela simples razão de que predicados com um número diferente de argumentos (sua n-adicidade) são predicados distintos – apesar de usarmos PASSAR5 nos exemplos acima, não há como indicar logicamente que o PASSAR4 de (7), que tem 5 argumentos – joão, manteiga, pão, faca, manhã – tem alguma relação com o PASSAR4 de (8), que tem 4 argumentos, e assim não capturamos a intuição de que, mesmo mudando o número de argumento relacionados por um predicado, não necessariamente indicamos que se trata de predicados distintos. A única maneira de solucionar esse impasse é lançar mão dos chamados postulados de significação. Contudo, tal saída ad hoc, pois os postulados de significação funcionariam caso-a-caso da seguinte maneira: para estabelecer que o predicado da sentença (7), PASSAR que tem 5 argumentos (indicado, por exemplo, por “PASSAR5”), e o predicado da sentença (8), PASSAR que tem 4 argumentos (“PASSAR4”), é preciso uma regra do tipo “toda vez que PASSAR5 é o caso, então também o é PASSAR4”. Se quiséssemos indicar que se (7) é o caso, (9) também é, precisaríamos de mais uma regra. A lição a ser tirada aqui, é que, mesmo com todas as regras possíveis, nossa intuição é diferente e relaciona-se com as relações dos predicados entre si.

Tal intuição é preservada e os acarretamentos garantidos de maneira bastante elegante ao lançarmos mão de uma semântica que conta com eventos:

(7c) Falhou ao checar gramática(parse) (Ocorreram problemas na criação ou escrita no directorio temporário math): \exists e

(Passar (e) Falhou ao checar gramática(parse) (Ocorreram problemas na criação ou escrita no directorio temporário math): \wedge

Agente (e, João) Falhou ao checar gramática(parse) (Ocorreram problemas na criação ou escrita no directorio temporário math): \wedge

Tema (e, a manteiga) Falhou ao checar gramática(parse) (Ocorreram problemas na criação ou escrita no directorio temporário math): \wedge
Alvo (e, pão) Falhou ao checar gramática(parse) (Ocorreram problemas na criação ou escrita no directorio temporário math): \wedge
Instrumento (e, a faca) Falhou ao checar gramática(parse) (Ocorreram problemas na criação ou escrita no directorio temporário math): \wedge
De (e, manhã)

(8c) Falhou ao checar gramática(parse) (Ocorreram problemas na criação ou escrita no directorio temporário math): \exists e

(Passar (e) \bigtriangleup Agente (e, João) Falhou ao checar gramática(parse) (Ocorreram problemas na criação ou escrita no directorio temporário math): \wedge
Tema (e, a manteiga) Falhou ao checar gramática(parse) (Ocorreram problemas na criação ou escrita no directorio temporário math): \wedge
Alvo (e, pão) Falhou ao checar gramática(parse) (Ocorreram problemas na criação ou escrita no directorio temporário math): \wedge
De (e, manhã))

(9c) Falhou ao checar gramática(parse) (Ocorreram problemas na criação ou escrita no directorio temporário math): \exists e

(Passar (e) Falhou ao checar gramática(parse) (Ocorreram problemas na criação ou escrita no directorio temporário math): \wedge
Agente (e, João) Falhou ao checar gramática(parse) (Ocorreram problemas na criação ou escrita no directorio temporário math): \wedge
Tema (e, a manteiga) Falhou ao checar gramática(parse) (Ocorreram problemas na criação ou escrita no directorio temporário math): \wedge
Alvo (e, pão))

O acarretamento pode ser explicitado através de um raciocínio do tipo aFalhou ao checar gramática(parse) (Ocorreram problemas na criação ou escrita no directorio temporário math): \wedge

bFalhou ao checar gramática(parse) (Ocorreram problemas na criação ou escrita no directorio temporário math): \therefore

a (se a e b são verdadeiros, então a é verdadeiro). Assim, se (6c) é o caso, também o é (7c) e (8c).

No entanto, como mencionamos, essa simplicidade e elegância têm um preço, do qual Davidson estava plenamente consciente: enriquecer a ontologia com uma nova entidade, os eventos, e delimitar as características dessa entidade é o principal tema de debate na filosofia quanto aos eventos. Essa problemática – em poucas palavras, o papel heurístico dos eventos e a natureza de sua constituição – pode ser desdobrada em duas questões, uma ontológica e outra metafísica, que podem ser assim formuladas: existem eventos? Se a resposta for afirmativa – e parece que é, dado os argumentos que vimos logo acima –, temos então que nos pronunciar sobre a segunda questão, a questão metafísica: o que são eventos? Que tipo de entidades são eventos? Apenas depois de responder essas últimas questões podemos nos pronunciar sobre problemas de identidade e individualização de eventos (quando dois eventos são iguais?).


Natureza dos eventos

A discussão ontológica e metafísica relativa a eventos pode, à primeira vista, parecer desinteressante ou mesmo sem importância num trabalho de linguística, mas esse não é o caso. Tomemos as sentenças abaixo:

(10) João caiu de novo.

(11) Maria sempre repete suas próprias falas.

(12) Pedro almoça todo dia.

(13) Luis consertou o carro e Samira também.

(14) Tiago gravou um CD e Joana fez exatamente o mesmo.

As quedas de João em (10) são a mesma? Se sim, como elas podem ser iguais potencialmente ocorrendo em dias e talvez lugares diferentes? Se não, o que faz a expressão “de novo” nessa sentença? Se Joana gravou um CD diferente daquele gravado por Tiago em (14), essa sentença ainda é boa; a qual evento “(fez) exatamente o mesmo” se refere, se se trata de CDs diferentes, gravados em momentos diferentes, por agentes diferentes?

Estamos diante de problemas de individualização e identidade, e é justamente para respondê-los que precisamos nos pronunciar sobre a metafísica dos eventos, pois, a depender da natureza metafísica que atribuiremos a eles, daremos diferentes respostas às perguntas feitas no parágrafo acima. Para mostrar quais são as principais possibilidades em jogo, pensemos em sentenças como (15-17), que falam não de eventos, mas de “coisas”, e afirmam algum tipo de “identidade entre coisas”:

(15) João tem uma cadeira em casa e Pedro tem uma igualzinha na sua chácara / a mesma cadeira.

(16) João destruiu a cadeira e Pedro também.

(17) João pintou a parede de branco e Pedro usou a mesma cor.

A sentença (15) não pode ser tomada no sentido que parece ter, ou seja, querendo dizer que os dois, João e Pedro, têm de fato, realmente a mesma (única) cadeira, dado que um mesmo objeto não pode estar simultaneamente em dois lugares diferentes do mundo, e “igualzinha” e “a mesma” nessa sentença devem se referir a algo como identidade de tipos (type identity) e não de objetos (token identity) (cf. Steward, 1998): as cadeiras possuídas por João e Pedro têm, provavelmente, um número consideravelmente grande de características (propriedades) em comum, por exemplo, modelo, marca, tipo de acabamento, estilo, efeito de decoração no ambiente, etc., e apenas isso. O mesmo se dá com a sentença (16), cuja interpretação preferencial (e que nos interessa aqui) é a de que Pedro e João destruíram a cadeira juntos, pois uma vez destruída (por completo) uma cadeira específica, não é possível destruí-la de novo. A intuição que queremos capturar aqui é a de que objetos como cadeiras são concretos e particulares, i.e., ocupam plenamente uma região do espaço-tempo (não é possível que duas cadeiras ou uma cadeira e mais alguma coisa ocupem um mesmo lugar num mesmo tempo) e não se repetem (não há, não haverá e nunca houve duas cadeiras exatamente iguais). Em (17) temos algo diferente; para essa sentença, podemos tomar “(a) mesma” no sentido que parece ter, ou seja, Pedro de fato, realmente utilizou a mesma cor que João, pois cor é algo que se repete (é possível ver várias coisas que são ou brancas, ou verdes, ou vermelhas, etc.), e que pode também ser sobreposta (é possível, por exemplo, misturar branco com verde). É dessa forma que dizemos que cores são algo abstrato (não ocupam plenamente uma região espaço-temporal) e universal (elas se repetem).

Essas rápidas considerações mostram que quando falamos de “coisas” e afirmamos sua identidade, mobilizamos algumas categorias metafísicas para enquadrar essas “coisas” segundo respondem a certos critérios (repetir-se no tempo e no espaço, ocupar lugar no tempo e no espaço) e também segundo suas características linguísticas, o modo como nos referimos a eles. É assim que podemos dizer que cadeira é um particular e branco um universal. E quanto aos eventos? Em que categoria eles se encaixariam se aplicássemos a eles os critérios aqui descritos? Seriam particulares ou seriam universais, ou ainda um terceiro tipo de entidade? Essa escolha afeta o modo como devemos entender “de novo” em (10), “também” em (13) e “(exatamente) o mesmo” em (14), e é de supor que uma teoria linguística que pretenda analisar essas sentenças se preocupe com isso; novamente, estamos diante de um ponto de encontro importante entre filosofia e linguística.

As respostas que têm sido dadas a essas questões podem ser divididas em duas grandes ordens de consideração. A primeira dessas ordens chamaremos aqui de reducionista, pois tenta aproximar ou igualar eventos a entidades como “cadeiras” ou a propriedades como “ser verde”; a segunda ordem chamaremos de não-reducionista, pois considera os eventos como entidades ontológicas autônomas, ou seja, como entidades que não são nem como “cadeiras” nem como “ser verde”, mas têm um estatuto paralelo. A razão de usarmos aqui o termo não-reducidonista se deve ao fato de que, juntamente com a grande maioria dos filósofos (cf. Varzi, 2005), atribuímos aos particulares e às propriedades certa prioridade ontológica relativamente aos estados de coisas e aos tropos (que veremos adiante), justamente por esses últimos serem dependentes dos primeiros, pois podem ser descritos como arranjos (específicos) de particulares e propriedades.

Com esse quadro em mente, e de maneira muito resumida, podemos dizer que:


(i) para aqueles que tomam os eventos como particulares (Quine, 1985 e Davidson, 1967, 1970, pelo menos), sua individualização é feita levando-se em conta a região espaço-temporal que ele ocupa e eles não podem se repetir, pois um particular, por definição, é algo que ocupa (plenamente, se concreto) uma região espaço-temporal. Assim, para as sentenças de (10) a (14), outras saídas deverão ser encontradas, talvez apelando para algum critério, ainda a ser fornecido, de semelhança entre eventos e que possa explicar por que temos intuições tão fortes a respeito da repetição de eventos;

(ii) para quem toma os eventos como universais (ou particulares abstratos) (Kim, 1973), sua individualização é dada pela propriedade que eles exemplificam. Além disso, se considerarmos que as exemplificações de propriedade são também condicionadas ao tempo, não teremos como dar conta da repetição de eventos, e a proliferação de eventos será enorme, pois será exatamente igual ao número de propriedades imaginadas, e o critério de identidade entre propriedades é muito fino;

(iii) com relação a quem considera os eventos como entidades autônomas, a individualização é compatível com a natureza que lhes é atribuída: assim, se um estado de coisas ou um tropo é concebido como uma estrutura composta de um particular, uma propriedade e um momento de tempo, e se uma dessas coisas cessar de existir ou de ser o caso, o estado de coisas ou o tropo cessará também, pois mudança na composição de estado de coisas ou de tropos configura outro evento, e mesmos eventos correspondem a configurações idênticas (cf. Bennett, 1996).

Diante de uma sentença como:

(18) João se atrasou de novo;

quem adota a posição (i) dirá que se trata de dois eventos semelhantes, mas não iguais; quem adota a posição (ii) dirá que se trata da repetição de um mesmo evento ('João se atrasar') ou tipo de evento ('atrasar-se'); por fim, quem adota a posição (iii) poderá dizer que se trata de eventos iguais se eles forem compostos de mesmas propriedades e participantes, ou apenas semelhantes se houver diferentes propriedades envolvidas em cada um das instanciações – obviamente, se considerar que o tempo é um propriedade de eventos, então (18) só pode falar de eventos semelhantes, mas não iguais.

De fato, o problema apresentado pela individualização dos eventos é que ela pode ser muito detalhada, quando é deixada por conta das propriedades – pois elas são em número virtualmente ilimitado e suas diferenças são extremamente sutis (trilateralidade e triangularidade, por exemplo, nunca ocorrem em separado, mas são propriedades distintas) –, ou muito grosseiras, quando se apela para particulares que não podem ser sobrepostos. O caminho do meio, entre uma individualização muito detalhada e uma muito grosseira, é o principal objetivo de filósofos como Davidson, Lombard (1998) e Bennett (1988), como de resto é objetivo de qualquer teoria sobre eventos.


Conclusão

Apesar dos complexos problemas filosóficos que circundam a noção de evento, ela foi e ainda é usada em linguística de maneira bastante produtiva, não somente para lidar com velhos problemas linguísticos, mas também como ferramenta heurística, abrindo importantes linhas de investigação, como aquelas que ressaltam o paralelismo entre o domínio nominal e o domínio verbal, postulando que é possível, em certa medida, dar conta de fenômenos nos dois domínios com um mesmo ferramental. Talvez o melhor exemplo desse tipo de investigação seja o tratamento mereológico que autores como Krifka (1998) postulam para os eventos: através de uma descrição detalhada das relações de parte e todo entre eventos e da composição de eventos, é possível lançar luz sobre o aspecto verbal e a quantificação sobre eventos. Assim, ideias usadas para lidar com nomes de indivíduos, plurais e termos de massa podem contribuir para o entendimento dos eventos, e é também de se esperar que o estudo dos eventos possa lançar luz sobre o estudo dos nomes, estreitando a relação entre os dois domínios. É certo que o interesse dos linguistas pela noção de eventos é mais instrumental do que o interesse filosófico, o que não quer dizer que as duas disciplinas, a linguística e a filosofia, não possam caminhar juntas para melhor entender os eventos. Além disso, esse uso mais instrumental da noção de eventos feita pelos linguistas não tem, em si, nada de problemático. Uma consideração semelhante é feita também por Ilari e Basso (2007, p. 296):

"A noção de evento surgiu na fronteira entre três domínios, a linguística, a filosofia e a lógica e, provavelmente, entendê-la como uma noção indeterminada foi um dos grandes motivos de seu sucesso. Ora, no bazar de fenômenos que ela ajuda a esclarecer é possível que a pesquisa fixe, a qualquer momento, um conjunto de fenômenos mais coerente, e que o tome como referência para elaborar uma definição mais restritiva. Também é possível que as necessidades de uma teoria qualquer levem a encarar como eventos apenas certas coisas, e não outras. Terá então acontecido mais uma vez aquilo que vemos acontecer todos os dias em ciência: uma noção mais maleável ganha contornos mais rígidos no contexto de uma teoria que suplantou outras. Esse é um fato que se repetiu inúmeras vezes na história da ciência, e não só da ciência da linguagem. Não vale a pena assustar-se com isso."


Referências Bibliográficas

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