Good-Enough Theory - Enciclopédia Virtual de Psicolinguística

Good-Enough Theory

Versão Inicial: Antonio João Carvalho Ribeiro

Curador: Antonio João Carvalho Ribeiro


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A abordagem Good-Enough da compreensão de linguagem, de Fernanda Ferreira e diversos colaboradores (Christianson et. al., 2001; Ferreira et. al., 2002; Christianson et. al., 2006; Ferreira & Patson, 2007) apresenta-se, atualmente, como um dos mais importantes desafios aos modelos de processamento de frase que têm como pressuposto a componibilidade (compositionality) do significado. De acordo com o que se chama de Princípio de Frege, “O significado de uma expressão é uma função dos significados de suas partes” (The Fregean Principle of Compositionality […] although it is unlilkely that he ever stated the principle in precisely this way. […] The meaning of an expression is a function of the meaning of its parts (Cann, 1994)). E, como salientam Ferreira et al. (2002), os principais modelos teóricos que delimitam o campo da pesquisa em processamento de frase – a teoria do Garden Path (de Frazier, 1979; Frazier & Fodor, 1978; Ferreira & Clifton Jr., 1986), de processamento serial e prioritariamente sintático, e o modelo de Constraint-satisfaction (MacDonald et al., 1994; Trueswell et al., 1994), de processamento paralelo, computando, desde o início, todas as fontes de informação relevantes – pressupõem que a interpretação final da frase deriva, por composição, dos significados de seus constituintes.

Entretanto, ainda segundo Ferreira et al. (2002), ela e seus colaboradores têm reunido indícios (que vêm se juntar a outros, da literatura em Psicologia da Linguagem, questionando a componibilidade do significado) que sugerem que a compreensão de linguagem pode ser parcial ou, como eles a batizaram, good-enough. Entre esses, estão os resultados de duas séries de experimentos: uma (Ferreira & Stacey, 2000), focalizando a interpretação de passivas anômalas; a outra, conduzida por Christianson et al. (2001), a persistência, na memória imediata dos sujeitos por eles testados, da interpretação inicial de SNs ambíguos (“the deer” / o cervo) em construções como “While the man hunted the deer ran into the woods” (em PB, “Enquanto o homem caçava o cervo disparou na floresta”).

Os sujeitos dos experimentos de Ferreira & Stacey (2000) foram, pode-se dizer, “ludibriados” por frases na voz passiva que descrevem eventos implausíveis, tendo sido levados a construir interpretações baseadas em heurísticas, em vez de derivá-las de algoritmos sintáticos. Frases na voz passiva como “The dog was bitten by the man” (em PB, “O cão foi mordido pelo homem”) foram por eles julgadas plausíveis em mais de um quarto das vezes em que lhes foram apresentadas visualmente. E, ao ouvi-las, também não puderam identificar precisamente os papéis dos participantes da ação, permitindo concluir que, diante de passivas anômalas, quando é preciso decidir “quem faz o quê a quem”, o conhecimento de mundo pode preponderar sobre a composição dos constituintes sintática e semanticamente analisados. Buscando explicar tais achados, Ferreira e colaboradores lembram que estruturas sintáticas são fugazes e que, por isso, necessitam de reforço imediato, que deve advir de “esquemas” baseados em experiências prévias ou do contexto. Como eventos do tipo “O cão foi mordido pelo homem” não encontram respaldo em “esquemas” armazenados em nossa memória de longo-prazo, é provável que, na interação verbal entre indivíduos, tais frases sejam corretamente interpretadas com base no contexto, cuja falta, em ambientes controlados, deixaria espaço para representações good-enough.

A outra série de experimentos mencionada por Ferreira et al. (2002) foi a conduzida por Christianson et al. (2001), visando a observar se a interpretação inicial (incorreta) do SN ambíguo de estímulos como (1), abaixo, é apagada da memória de trabalho dos sujeitos quando se efetiva a reanálise do input, indispensável à interpretação correta da frase.

(1) While the man hunted the deer ran into the woods.

Enquanto o homem caçava o cervo correu para a floresta.

De acordo com a Teoria do Garden Path (TGP), no parsing de construções desse tipo, Late Closure liga o SN ambíguo, “the deer”, a “hunted”, núcleo do sintagma que está sendo processado. Isso feito, “ran” fica sem SUJ e, assim, não pode se acomodar na estrutura imposta ao input, o processamento é suspenso e, consequentemente, o leitor experimenta o efeito garden path. Contudo, se o parser se recupera do garden-path e promove a reanálise do input, passando “the deer” a SUJ da oração subsequente, a frase pode ser corretamente interpretada.

Sendo assim, Christianson et al. (2001) esperavam que, após a leitura da frase em (1), os sujeitos respondessem “No” a “Did the man hunt the deer?”, pois, após a reanálise da estrutura, “the man” ainda deveria estar caçando, mas não mais caçando o cervo, que estaria correndo para a floresta. Entretanto, as respostas colhidas demonstraram que, muitas vezes, a interpretação inicial dos SNs ambíguos persistiu na memória dos sujeitos. Sendo assim, após a leitura de (1), a estrutura em que “the deer” era OD de “hunted” persistiu em sua memória de trabalho. E, ao final do processamento, eles retiveram uma representação da frase em que “the deer” era, a um só tempo, agente de “ran” e paciente de “hunted” – de acordo com Ferreira e colaboradores, evidência de que a interpretação de uma frase frequentemente pode não refletir o seu conteúdo de verdade.

De acordo com Christianson et al. (2001), seria possível atribuir as altas taxas de respostas indicativas de persistência da interpretação inicial desses SNs apenas a inferências a partir do conhecimento de mundo. Considerando (1), acima, é forçoso reconhecer que, embora a interpretação rigorosa da frase completamente reanalisada não especifique que o homem caçava o cervo, não afasta tal possibilidade, já que, dados os participantes da ação descrita – caçar –, é plausível inferir tal relação. Hipoteticamente, então, estruturas que levam ao garden-path, como a que, de início, é imposta a (1) durante o first-pass-parsing, seriam completamente reanalisadas e possíveis inferências, as únicas responsáveis por sua interpretação por vezes equivocada. De fato, manipulando a conclusão da frase, Christianson et al. (op. cit.,) chegaram a comprovar que a plausibilidade de (2), contrastada à não plausibilidade de (3), favorece a persistência da interpretação inicial, equivocada, de SNs ambíguos como “the deer”, no caso, no papel de paciente de “hunted”.

(2) While the man hunted the deer that was brown and graceful… ran into the woods.

Enquanto o homem caçava o cervo (que era) marrom e gracioso... correu para a floresta.

(3) While the man hunted the deer that was brown and graceful… paced in the zoo.

Enquanto o homem caçava o cervo (que era) marrom e gracioso... caminhava no zoológico.

Entretanto, considerando (4), (5) e (6), Christianson et al. (2001) mostraram além disso, que condições que afetam as operações de parsing, podem tornar difícil a reanálise.

(4) While the man hunted... the deer that was brown and graceful… ran into the woods.

Enquanto o homem caçava... o cervo (que era) marrom e gracioso... correu para a floresta.

(5) While the man hunted... the deer... ran into the woods.

Enquanto o homem caçava... o cervo... correu para a floresta.

(6) While the man hunted... the brown and graceful deer… ran into the woods.

Enquanto o homem caçava... o marrom e gracioso cervo... correu para a floresta.

Os achados de Christianson et al. (2001) sugerem a atuação do que Ferreira & Henderson (1991) identificaram como Head Position effect, isto é, o efeito da distância que separa o núcleo do sintagma ambíguo e o item que assinala que o parser entrou no garden path. Por conta do referido efeito, quanto mais longa essa distância (e não quanto mais extensa for extensão da zona ambígua), mais provável é a persistência da interpretação inicial, favorecendo, assim, a representação good-enough de (4), quando comparada (5) e a (6). Christianson et al. (op. cit.) mostraram ainda, que, eliminando-se a possibilidade de garden path – pela reversão da ordem das orações subordinada e principal, ou separando-as por vírgula, como se vê, respectivamente, em (7) e (8), abaixo, torna-se improvável (se não inexistente) a ocorrência de respostas incorretas a perguntas que sondam a compreensão da frase.

(7) The deer that was brown and graceful ran into the woods while the man hunted.

O cervo (que era) marrom e gracioso correu para a floresta enquanto o homem caçava.

(8) While the man hunted, the deer ran into the woods.

Enquanto o homem caçava, o cervo correu para a floresta.

Ainda controlando as condições em que se dá o parsing, Christianson et al. (2001), contrapondo estímulos com Reflexive Absolute Verbs (RAT), como, por exemplo, “wash”, “shave”, “dress” e Optionally Transitive Verbs (OPT) como, por exemplo, “hunt”, “chew”, “read”, não observaram qualquer diferença entre o número de respostas que indicaram a persistência da interpretação inicial de SNs ambíguos de frases como (9) e (10), respectivamente, “the baby” e “the deer” , como pacientes dos verbos das orações subordinadas.

(9) While Anna dressed the baby played in the crib.

Enquanto Ana vestia o bebê brincou no berço.

(10) While the man hunted the deer ran into the woods.

Enquanto o homem caçava, o cervo correu para a floresta.

Se a persistência da interpretação inicial dos SNs ambíguos de (9) e (10) se devesse a inferências dos sujeitos a partir do input completamente reanalisado –, a reanálise de RAT verbs, por exemplo, “dress”, as bloqueariam, e consequentemente o número de “Yes” a perguntas como “Did Anna dress the baby?” seria inferior ao número de respostas afirmativas a “Did the man hunt the deer?”. A reanálise de RAT verbs rende uma interpretação ainda bi-transitiva, em que agente e paciente são co-referenciais, tornando impossível inferir outra em que um segundo SN seja o paciente da ação verbal. Considerando-se (9), acima, ao perder o OD, “the baby”, para a oração principal, e “dress” deve ser renalisado, com “Anna” passando a agente e paciente da ação de “dress”. E, então, não seria possível inferir que “Anna dressed the baby”. Portanto, não observando diferença entre a proporção de respostas afirmativas a “Did Anna dress the baby?” e a “Did the man hunt the deer?”, segundo Christianson et. al. (2001), indica que a interpretação inicial, equivocada, dos SNs ambíguos em questão persistiu na memória de trabalho dos sujeitos em virtude de a reanálise do input não se ter completado, não se podendo atribuí-la, simplesmente, a inferências baseadas em conhecimento de mundo. Aqui, torna-se indispensável assinalar que a omissão do pronome “se”, sem prejuízo da acepção reflexiva de verbos como “vestir”, não é possível em todos os dialetos do PB (podendo ser observada, por exemplo, no estado de Minas Gerais), e, por isso, os verbos reflexivos do português recriam a ambiguidade de (9) apenas para alguns grupos de falantes nativos da língua.

Finalmente, testando a hipótese de que a compreensão de linguagem que resulta de heurísticas do tipo good-enough observa-se mais frequentemente entre os idosos, como compensação do déficit da capacidade de memória de trabalho normalmente associado à idade, Christianson et. al. (2006), não demonstraram que os indivíduos idosos enfrentam maiores dificuldades do que os sujeitos dos experimentos de Christianson et. al. (2001), diante de estímulos cujo parsing leva ao garden-path. Entre os mais velhos, contudo, foi maior a interferência da interpretação inicial dos SNS ambíguos no resultado final do processo de compreensão das frases com verbos transitivos (como, por exemplo, “hunt”, “chew” e “read”), provavelmente pela maior possibilidade de inferências às quais os idosos recorreriam para compensar o declínio da capacidade de memória relacionado ao avanço da idade.

Até o presente momento, fez-se apenas uma verificação experimental com vistas a colher evidências de representações good-enough no PB. Recentemente, Ribeiro (2008) surpreendeu o efeito de “persistência” da interpretação inicial de SNs ambíguos de frases, tais como “o cervo”, (11) em um experimento com falantes nativos.

(11) Enquanto o homem caçava o cervo disparou na floresta.

(12a) O homem caçava o cervo?

(12b) O cervo disparou na floresta?

O significativo número de respostas afirmativas à pergunta em (12a) colhido por Ribeiro (2008) indicou que a interpretação inicial de estruturas que levam potencialmente ao garden-path – como a que resulta do first-pass-parsing de (11), em que “o cervo” é tido como OD do V da oração subordinada, “caçando” – persistiu na memória dos sujeitos, sugerindo, de acordo com Christianson et. al. (2006), que tenha havido reanálise parcial do input. E, ao lado das respostas também afirmativas a (12b), que eles construíram representações semânticas incompletas de frases como (11), em que “o cervo” figurava como agente de “correu” e paciente de “caçando” – corroborando a hipótese de Ferreira e seus colaboradores, de que a compreensão de linguagem pode ser muitas vezes parcial, apenas good-enough.


Referências Bibliográficas

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