Late Closure - Enciclopédia Virtual de Psicolinguística

Late Closure

Versão Inicial: Antonio João Carvalho Ribeiro

Curador: Antonio João Carvalho Ribeiro


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Late Closure e Minimal Attatchment são as duas estratégias de parsing, ou seja, de construção de representações sintáticas de frases da linguagem humana, propostas por Lyn Frazier (1979) na versão original da Teoria do Garden Path. Guiado por uma ou por outra, o parser, o hipotético mecanismo analisador de frases da linguagem humana, segundo Frazier (op. cit.) é capaz de enfrentar as severas limitações da memória de trabalho humana e a transitoriedade do input e atribuir estruturas – e, a partir daí, significados – às frases das línguas naturais.

Late Closure, em tradução literal, “Fechamento Tardio”, enuncia-se: “When possible, attach incoming material into the clause or phrase currently being parsed”, ou seja, “Quando possível, ligue material novo na oração ou sintagma que está sendo processado”. Especificamente, no enunciado de Late Closure, “quando possível” significa “a menos que isso requeira a criação de nós potencialmente desnecessários”, pois, em princípio, parser é compelido a estruturar o input de maneira a recorrer ao menor número possível de nós sintáticos (Minimal Attatchment), consoante as regras da gramática da língua. Ressalvada essa possibilidade de não aplicação de Late Closure, seu enunciado, ([...] ligue material novo na oração ou sintagma que está sendo processado), preconiza a ligação de novos itens lexicais ao nó não terminal mais baixo que dominar o último item analisado. Por conseguinte, Late Closure guia o parsing de frases como a exemplificada em (1):

(1) Enquanto Maria estava costurando as meias caíram do colo dela.

While Mary was mending the socks fell off her lap.

Diante de (1) (cuja ambiguidade deve-se à omissão da vírgula que, se empregada, separando as orações subordinada e principal, a evitaria), na fase inicial do processamento (first-pass-parsing), guiado por Late Closure, o parser liga a “costurando” o que lhe parece ser o seu OD, “as meias” (conforme as regras da gramática e sem criar nós adicionais na estrutura até então analisada). Em casos como esse, o SN ambíguo, “as meias”, fica impedido de se ligar fora da oração subordinada, pois, se o fizesse, tal ligação resultaria no fechamento precoce (Early Closure) da estrutura argumental de “costurar”, apesar da presença, no input, de um candidato gramaticalmente legítimo a OD do V.

Entretanto, nem sempre a adesão a Late Closure possibilita a interpretação correta da frase, como se deduz do parsing de (1), pois, na verdade, “as meias” não é OD de “costurando”, mas SUJ de “caíram”. E, quando o parser “percebe o erro que cometeu”, o processamento da frase é suspenso – gerando o efeito garden path – até que o input seja reanalisado. No exemplo em (1), dá-se o remanejamento do SN (não mais ambíguo), “as meias”, para a posição de SUJ da oração principal (ligação essa que, de início, foi evitada por ferir Late Closure).

Frazier (1979) buscou simplificar (nas duas estratégias que propôs) os sete princípios de parsing de Kimball (1973), entre os quais figura o ancestral direto de Late Closure, Right Association: “Itens terminais são ligados ao nó não terminal mais baixo”, estendendo a estrutura para baixo e para a direita (Principle Two: Terminal symbols optimally associate to the lowest nonterminal node). Frazier (1978; 1979) observou apropriadamente que Right Association não dá conta da preferência do parser quando confrontado a sequências como a que se acha transcrita no original em (2), a seguir:

(2) Joe bought the book for Susan.


Frente a (2), Right Association prediz (incorretamente) que o parser liga “for Susan” ao SN/OD de “bought”. Mas há evidências de que, em casos como esses, o parsing segue Minimal Attachment, com a aposição de “for Susan” ao SV, evitando-se, dessa maneira, a criação do nó frasal extra que seria preciso para efetivar sua ligação a “the book”.

Já diante de (3), em que aparece um SN/OD mais extenso, observa-se a preferência pela aposição local do SN, “to Mary” (que não fere Minimal Attachment), que é explicada na TGP com base na estrutura interna do parser, cujo estágio inicial é capaz de lidar com apenas 7 + ou - 2 itens do input por vez.

(3) John mailed (the postcard) (the note) (the memo and) the letter to Mary.

A estrutura interna do parser, de acordo com a proposta de Frazier & Fodor (1978), divide-se em dois estágios: Preliminary Phrase Packager (PPP) e Sentence Structure Supervisor (SSS). No estágio inicial – guiado por Minimal Attachment e Late Closure – o parser toma decisões com base em uma “visão miopizada” do input, em virtude das severas restrições à memória de trabalho humana, capaz de “enxergar” 7 + ou - 2 itens ou, no caso, palavras. Portanto, da estreita “janela” em que lhe é dado observar (2), adota Minimal Attachment, porque, no caso, pode “ver”, a um só tempo, todos os itens da frase. Mas prefere Late Closure quando, do mesmo ponto de observação, não mais tendo acesso aos itens que compõem a primeira parte de (3), já estruturados e “despachados” para SSS, só lhe é permitido “ver” os últimos. Finalmente, conforme o que há muito se conhece sobre a memória de trabalho humana – que menos carga lhe é imposta quanto mais estruturado o material a armazenar – o segundo estágio do parser, SSS, ao receber “packages” despachadas por PPP, é capaz de “ver” 7 + ou - 2 sintagmas e, portanto, tem uma visão completa da frase. A partir daí, o processamento prossegue ou a estrutura é recusada, devendo sofrer reanálise.

As evidências de Late Closure no português do Brasil (PB) até hoje se resumem aos resultados dos experimentos que foram conduzidos por Ribeiro (2004) (publicados em Ribeiro (2005)), investigando o processamento de pares de frases como (4) a (5):

(4) Enquanto Maria estava costurando as meias caíram no chão do quarto.

(5) Enquanto Maria estava costurando as meias a campainha soou três vezes.

Ribeiro (2004) relata que os falantes nativos do PB cujo desempenho testou despenderam significativamente mais tempo com a leitura de (4) do que com a de (5), sugerindo que o parsing de ambas, de acordo com Frazier (1979), segue Late Closure e que, justamente por isso, o processamento da primeira oferece dificuldades. Frente a ambas, seguindo Late Closure, os sujeitos ligam “as meias” a “costurando”, como OD. Mas, em (4), tal ligação acaba por deixar “caíram” sem SUJ, acarretando a suspensão do processamento da frase (efeito garden-path) até que o input seja reanalisado.

Contudo, a universalidade das estratégias de parsing tem sido questionada com base na controvérsia que envolve as orações relativas, desde que Cuetos & Mitchell (1988) mostraram diferenças trans-linguísticas no processamento de construções do tipo: [...] –SN1 – SN2 – OR, em que a oração relativa (OR) tem dois antecedentes em potencial, conforme é exemplificado em (6) e (7), a seguir:

(6) Alguien disparó contra el criado de la actriz que estaba en el balcón. (7) Someone shot the servant of the actress who was on the balcony.

O parsing de frases desse tipo, em que a ligação da OR, a um ou a outro dos antecedentes gramaticalmente legítimos, é indiferente em termos da complexidade da estrutura resultante (logo, não envolvendo Minimal Attachment), de acordo com a TGP, deveria seguir Late Closure, independendo da língua considerada. Mas os achados de Cuetos & Mitchell (1988) indicaram que os falantes do espanhol testados preferiram Early Closure tanto na interpretação quanto no parsing de ORs como a do exemplo (6), “que estaba en el balcón”, tratando- a como modificador do antecedente mais alto na estrutura da frase em questão, “el criado”. Ao contrário dos falantes do inglês, que, preferencialmente, tomaram a OR em (7) como modificador do antecedente mais baixo, “the actress”, seguindo Late Closure. Questionando a universalidade de Late Closure, Cuetos & Mitchell (op. cit.) puseram em posição de xeque o alegado inatismo do mecanismo processador, e logo Mitchell e Cuetos (1991) propuseram a Hipótese da Sintonia do parser (Tuning Hypothesis), que sugere que a análise inicial do input estruturalmente ambíguo dependeria do acúmulo de experiências individuais do ouvinte/ leitor no lidar com estruturas não ambíguas comparáveis. Diante de ambiguidade estrutural, a primeira opção do parser não refletiria quaisquer limites à atuação do dispositivo, mas, em vez disso, soluções eventualmente predominantes na vivência do indivíduo, conforme a frequência atualizada das alternativas em questão.

No entanto, a Hipótese da Sintonia também se viu em meio a dados conflitantes: os do corpus apresentado por (Mitchell & Brysbaert, 1998), em que predominava ligação da OR ao site mais baixo, e as evidências experimentais em favor da ligação ao mais alto. A preferência por Early Closure no processamento de construções equivalentes revelou-se contraditória entre as línguas românicas, mostrando-se no francês (Zagar; Pynte; Rativeau, 1997), mas não no italiano (De Vicenzi & Job, 1993) e no romeno (Erlich et. al., 2003). E não se limitou a essas, desde que se pôde identificá-la no holandês e no croata (Lovric´, 2003).

Nesse cenário, Fazier e Clifton Jr. (1996) propuseram o Construal – um refinamento da TGP, em defesa da universalidade das estratégias de parsing, entre elas Late Closure –, passando a distinguir no processamento sintático (como é de praxe na teoria linguística) relações primárias, que se estabelecem entre os constituintes que são obrigatórios na frase (sujeito e predicado), e relações não primárias, afetando os demais. As primeiras, fundadas na ligação estritamente sintática dos constituintes, estariam sujeitas aos princípios de parsing, entre eles Late Closure. As outras, no âmbito da associação das estruturas de adjunção – entre elas as ORs – passariam a obedecer ao processo que eles chamaram de construal, orientado pelo acesso a informações de diversa natureza, inclusive semântica e pragmática.

A crise enfrentada por Late Closure chegou ao Brasil, com os resultados dos experimentos conduzidos por Ribeiro (2004), que incluíram o PB provisoriamente entre as línguas em que o processamento das ORs do tipo em questão, como a que se vê em (8), não segue Late Closure:

(8) Alguém atirou no empregado da atriz que estava na varanda.

Os falantes nativos do PB que responderam ao questionário aplicado por Ribeiro (op. cit.), afirmaram, na maioria das vezes, que “o empregado” estava na varanda, interpretando, dessa maneira, a OR, “que estava na varanda”, como modificador do antecedente mais alto na estrutura (Early Closure). E as significativas diferenças observadas por Ribeiro (op. cit.) entre os tempos de leitura auto-monitorada dos fragmentos em negrito de (9) e (10) sugeriram que o excedente despendido com o de (9) deveu-se ao fato de que os sujeitos se comprometeram, inicialmente, com a ligação da OR ao antecedente mais alto na estrutura, “o empregado” - Early Closure no parsing – e, a seguir, diante de “com seu marido”, impossibilitados de interpretar a frase, foram forçados a reanalisar a estrutura.

(9) Alguém atirou no empregado da atriz que estava na varanda com seu marido.

(10) Alguém atirou na empregada da atriz que estava na varanda com seu marido.

Seguiram-se então, diversos estudos, resenhados por Maia, Fernández, Costa e Lourenço-Gomes (2006-07), todos comprovando a preferência por Early Closure na interpretação final das ORs em questão. Maia et. al. (op. cit.) conduziram ainda, paralelamente, no Brasil e em Portugal, um experimento de leitura auto-monitorada, expondo os sujeitos a frases cuja ambiguidade se resolve com base na concordância de número, como (11) e (12), abaixo:

(11) A vítima reconheceu os cúmplices do ladrão que fugiram (depois do assalto ao banco).

(12) A vítima reconheceu o cúmplice dos ladrões que fugiram (depois do assalto ao banco).

Assim, lograram demonstrar a preferência inicial (first-pass-parsing) dos sujeitos por Late Closure na ligação das ORs (em negrito) presentes nos estímulos, cujos tempos de leitura foram significativamente menores quando a concordância de número do verbo forçava a sua ligação ao antecedente mais baixo na estrutura. Em favor dos seus, e contra os achados de Ribeiro (2004), Maia et. al. (op. cit.) alegaram que, provavelmente, a resolução da ambiguidade dos estímulos construídos por Ribeiro (op. cit.), similares aos utilizados por Cuetos & Mitchell (1988), não se fez na fase inicial do processamento. Sendo assim, será preciso explicar, com base na mesma argumentação, os resultados obtidos, por Zagar et. al. (1997), com rastreamento ocular, que mostraram que os falantes nativos do francês testados por eles não seguiram Late Closure no parsing de ORs cuja ambiguidade se resolve com base na concordância de gênero.


Referências Bibliográficas

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