Teoria do Garden Path - Enciclopédia Virtual de Psicolinguística

Teoria do Garden Path

Versão Inicial: Marcus Maia

Curador: Marcus Maia


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A Teoria do Garden-Path – TGP (Frazier & Fodor, 1978; Frazier, 1979; Frazier & Rayner, 1982), termo traduzido em português por Dillinger (1992), como a Teoria do Labirinto é um modelo de processamento de frases modular e serial. Conforme discute-se em Maia & Finger (2005), a metáfora do garden path ou “caminho do jardim” é basicamente semelhante a do labirinto. Trata-se de um modelo estrutural e o labirinto, à semelhança de uma frase, é uma estrutura, com várias bifurcações a serem escolhidas ao se trafegar por ele. Ao se entrar em uma sala em que há várias portas, escolhe-se uma delas, provavelmente a mais próxima e, algumas vezes, a escolha leva para fora, ao jardim, e não ao interior da estrutura, como pretendido.

A TGP tributária de modelos anteriores de parsing, tais como os de Bever (1970) e Kimball (1973) que, posteriormente à falência da Derivational Theory of Complexity – DTC[1], a Teoria da Complexidade Derivacional, procuraram explicar as preferências do parser postulando princípios de construção da estrutura superficial sensíveis tanto à competência gramatical quanto aos limites da memória de trabalho.

Frazier e Fodor (1978) e, principalmente, Frazier (1979) unificam em um sistema mais econômico e elegante as estratégias propostas durante a década de setenta por Bever e por Kimball. Dois princípios são inicialmente propostos: Late Closure – LC (Aposição Local) e Minimal Attachment – MA (Aposição Mínima). Basicamente, o modelo de Frazier e Fodor, que ficou conhecido na literatura como Sausage Machine – a máquina de salsichas – é composto de dois estágios: um PPP – Preliminary Phrase Packager –, que procede à estruturação inicial dos itens lexicais em sintagmas e um SSS – Sentence Structure Supervisor –, responsável pela estruturação subsequente dos sintagmas em um marcador frasal completo. As decisões iniciais do PPP quanto às relações estruturais entre os nós sintáticos são determinadas pelo LC e pelo MA. Posteriormente, argumentando em favor dessas estratégias de parsing, Frazier & Rayner (1982) apresentam um experimento em que registraram os movimentos oculares de sujeitos na leitura de frases contendo ambiguidades estruturais temporárias, tais como:

2. Since Jay always jogs a mile this seems like a short distance to him. (Late Closure ou Aposição Local)

“Como Jay sempre corre uma milha isso parece perto para ele”

3. Since Jay always jogs a mile really seems like a very short distance to him. (Early Closure ou Aposição Não-Local)

“Como Jay sempre corre uma milha realmente parece muito perto para ele”

4. We figured that Tom probably forgot the flashlight. (Minimal Attachment ou Aposição Mínima)

“Nós imaginamos que Tom provavelmente esqueceu a lanterna”

5. Tom probably forgot the flashlight had been stolen. (Non-Minimal Attachment Aposição Não-Mínima)

“Tom provavelmente esqueceu que a lanterna tinha sido roubada”

Consideremos, inicialmente, o processamento de frases como (2) e (3) em que, segundo Frazier & Rayner (1982), a estratégia de parsing relevante seria a Aposicão Local (Late Closure, LC) – “Quando possível, aponha os itens lexicais que vão sendo encontrados à oração ou sintagma correntemente sendo processado, ou seja, o nó não terminal mais baixo possível dominando o último item analisado” [2] (p.180). Note-se que a sua contraparte alternativa é o Early Closure, sendo que a ideia de closure ou fechamento, emprestada de Kimball, indica que um sintagma deve ser completado ou fechado logo que possível, obedecendo a restrições impostas pelos limites da memória de trabalho. Late closure significa, portanto, que o fechamento do sintagma é atrasado (late) para incluir mais um item, opondo-se a estratégia early closure em que o sintagma é fechado logo ou cedo (early).

É interessante notar que o termo em que os autores se baseavam, como estamos vendo, em considerações de natureza temporal virá a ser estendido para referenciar também uma estratégia de localidade espacial, como veremos ao tratar do processamento de orações relativas, em que EC é frequentemente usado como equivalente a high attachment ou aposição alta, não-local, e LC é empregado no sentido de low attachment, aposição baixa, local. No exemplo em (2), a estratégia LC é aplicada, atrasando-se o fechamento do sintagma verbal, cujo núcleo é um verbo que pode ser transitivo ou intransitivo, para incluir-se o sintagma nominal a mile “uma milha” como objeto direto. A operação do parser é bem sucedida e não há garden path (efeito labirinto). Já em (3), a aplicação da estratégia é mal sucedida e diz-se que o parser é garden-pathed, ou seja, perde-se no labirinto. Guiado pelo LC, optou por atrasar o fechamento do SV para incluir o SN como objeto do verbo, mas, ao tentar continuar o processamento da frase, dá-se conta de que se perdeu no labirinto. Precisa, então, rever a análise, pois a estrutura, nesse caso, requeria o EC, o fechamento imediato do SV, sem incluir aí o SN a mile, que deverá ser, agora, reanalisado como sujeito da próxima oração.

Nas frases (4) e (5), o princípio de parsing relevante, segundo Frazier & Rayner (1982), é a Aposicão Mínima (Minimal Attachment, MA). Em (4) e (5), o SN the flashlight “a lanterna” apresenta ambiguidade estrutural temporária entre uma análise como objeto direto do verbo forgot “esqueceu” ou como sujeito de oração subordinada substantiva objetiva direta, pois esse verbo admite como complemento tanto um SN quanto uma oração. A predição do princípio da Aposição Mínima é a de que o parser deve “apor o material que vai encontrando ao marcador frasal em construção, usando o menor número de nós sintáticos, de acordo com as regras de boa formação da língua”[3] (p. 180). Assim, tanto em (4) quanto em (5), a preferência mínima será por incorporar o SN the flashlight como objeto direto de forgot e não como sujeito de complemento oracional, pois a primeira análise requer a postulação de menos nós sintáticos. Essa decisão revela-se acertada em (4), mas não em (5), estrutura não-mínima, que leva o parser ao garden-path. Ao encontrar a forma verbal had been “tinha sido”, o parser notará que a decisão mínima não funcionou nesse caso e precisará reanalisar o SN the flashlight como sujeito da oração objetiva direta.

Note-se que o efeito labirinto não teria ocorrido em (5) se a ação do parser não fosse imediatamente incrementacional, isto é, se cada novo item encontrado não fosse imediatamente incorporado à estrutura sintática em construção. Observe-se que há três alternativas lógicas a esse respeito: (a) o parser atrasa a computação até que o ponto de resolução da ambiguidade seja identificado e só então constrói a árvore correta; (b) o parser computa todas as análises distintas em paralelo; (c) o parser computa uma única análise sintática imediatamente e a mantém até que seja contradita, quando então deve retornar para reanalisar a frase. A primeira hipótese é entretida pelos modelos do tipo delay “atraso”, em que o parser só estruturaria os itens lexicais no final da frase. A segunda hipótese é o processamento paralelo, que postula que o parser constrói no onset, ou início da ambiguidade, estruturas múltiplas, vindo a abandonar aquelas que se tornam incompatíveis com o input subsequente. Em (4) e (5), por exemplo, o parser paralelo responderia ao onset da ambiguidade computando uma estrutura de oração nominal e uma estrutura de oração sentencial. Nesse caso, não haveria o efeito labirinto que geralmente se verifica nos estudos que apóiam a TGP, que adotam a terceira hipótese, a Imediaticidade da Análise (cf. Just & Carpenter, 1987).

Além das estratégias da Aposição Mínima e da Aposição Local, outros princípios de simplicidade ou economia de processamento têm sido incorporados à TGP ao longo dos anos, tais como as estratégias do Antecedente Ativo (Activer Filler), do Antecedente Mais Recente (Most Recent Filler Strategy) e o Princípio da Cadeia Mínima (Minimal Chain Principle). Essas estratégias são relevantes em uma subárea importante dos estudos de processamento de frases, a compreensão das relações anafóricas ou co-referenciais. Trata-se de saber se, quando e como as relações entre elementos da frase são estabelecidas. A estratégia do Antecedente Ativo (Frazier, 1987) propõe que, no estabelecimento de relações dependenciais entre um antecedente em posição não argumental e uma categoria vazia, o parser postula a existência do vazio com base no antecedente ativo, antes mesmo de acessar a grade de subcategorização do verbo. Haveria, por exemplo, uma categoria vazia denominada variável de QU imediatamente após o verbo, na frase “Quais músicas Vera compôs__?”. A categoria vazia seria a posição estrutural de objeto, sem conteúdo fonético, deixada pelo movimento do sintagma QU para a periferia esquerda da oração, no curso da sua derivação. Essa posição para onde se deslocou o sintagma QU não tem função gramatical e é, portanto, uma posição não argumental.

Assim, segundo a estratégia do Antecedente Ativo, o sintagma QU seria um antecedente ativo, prevendo a existência de uma categoria vazia como seu dependente referencial, como primeiro recurso. Por outro lado, diferentemente da estratégia do Antecedente Ativo, que é uma estratégia de postulação da categoria vazia, a partir do antecedente, a estratégia do Antecente Mais Recente (Frazier, Clifton & Randall, 1983) postula um antecedente próximo a partir da localização de uma categoria vazia. Devemos mencionar, finalmente, um princípio que é também parte da TGP, o princípio da Cadeia Mínima (Minimal Chain Principle), formulado em De Vicenzi (1991), como uma estratégia de processamento de dependências referenciais que propõe que os membros necessários de uma cadeia sejam postulados tão logo possível, sendo preferidas as cadeias menores e com menos elos.

Uma revisão importante da TGP é o modelo de Construal, proposto em Frazier & Clifton (1996). Segundo esse modelo, diferenciam-se relações sintáticas primárias de relações não-primárias, sendo as primeiras exemplificadas como a relação do tipo sujeito-predicado ou aquela que se estabelece entre um núcleo e seu complemento, enquanto que as segundas seriam elaborações de posições argumentais através de adjuntos. Frazier & Clifton (1996) propõem que o mecanismo de processamento de frases (parser) é capaz de distinguir entre esses dois tipos de relações sintáticas, procedendo de maneira específica ao computá-las. No caso das relações primárias, tais como a concatenação de um núcleo a seu complemento, como previsto na teoria do Garden Path, os fatores estritamente sintáticos são prioritários na construção da estrutura sintática pelo processador, invocando-se o princípio da Aposição Mínima (Minimal Attachment – MA), que leva o processador a decidir pela estrutura com menos nós quando confrontado com ambiguidades sintáticas, ou o princípio da Aposição Mais Baixa (Late Closure – LC), quando as estruturas ambíguas apresentam o mesmo número de nós. Os fatores semânticos e pragmáticos não seriam capazes de influenciar a decisão do parser, atuando apenas no segundo passe, quando a frase pode ser revista pelo processador temático. No caso das relações secundárias, como, por exemplo, a aposição de uma oração relativa a um SN, a decisão estrutural do processador não seria tão automática e estritamente sintática quanto no caso das relações primárias, postulando-se que a oração ambígua seja associada (e não diretamente aposta) ao marcador frasal em construção através do sistema de Construal, permitindo que fatores semânticos e pragmáticos influenciem a interpretação da estrutura, contribuindo para a identificação pelo parser da análise preferencial.

Em resumo, as afirmações fundamentais da Teoria do Garden Path são:

(a) o parser usa uma porção do seu conhecimento gramatical isolado do conhecimento do mundo e de outras informações para a identificação inicial das relações sintagmáticas;

(b) o parser confronta-se com sintagmas de aposição ambígua e compromete-se com uma estrutura única;

(c) pressionado pela arquitetura do sistema de memória de curto prazo, que tem um limite estreito de processamento e armazenamento, o parser segue um princípio psicológico na escolha dessa estrutura: use o menor número possível de nós (Aposição Mínima) e, se duas aposições mínimas existem, aponha cada nova palavra ao sintagma corrente (Aposição Local);

(d) para estabelecer relações de longa distância, o parser usa o conhecimento da estrutura para:

- identificar um elemento ativo na periferia esquerda e associá-lo à primeira lacuna disponível (Antecedente Ativo);

- associar uma lacuna ao antecedente mais recente (Antecedente Mais Recente);

- postular rapidamente análises com menos cadeias e cadeias com menos elos (Princípio da Cadeia Mínima);

(e) o parser distingue entre relações sintáticas primárias e secundárias, aplicando os princípios acima apenas para o processamento das relações primárias (Construal).


Notas

  1. Na década de 60, após o advento do primeiro modelo transformacional (kernel & tags), diferentes investigações experimentais procuraram demonstrar a identidade entre a história derivacional das frases e a sua complexidade perceptual. A hipótese forte propunha a transparência entre a gramática e o parser, isto é, frases com um maior número de transformações seriam mais difíceis de processar do que frases com menos transformações. Ao ouvirmos uma frase, computaríamos o marcador frasal superficial e a partir daí as estruturas subjacentes seriam recuperadas, revertendo-se as transformações que se aplicam na derivação da frase. Os primeiros experimentos, por exemplo, McMahon (1963) pareceram indicar que o julgamento do valor de verdade de orações ativas, passivas, afirmativas e negativas revelava grau de dificuldade variável, requerendo as negativas e passivas mais tempo de avaliação do que as afirmativas ativas. Aparentemente, haveria menos operações gramaticais envolvidas na derivação das frases ativas afirmativas do que nas outras. Entretanto, diversos outros experimentos subseqüentes (cf. Fodor, Bever & Garrett, 1974), vieram demonstrar que a Teoria da Complexidade Derivacional, ao menos em sua versão mais forte, era falsa.
  2. Late Closure: When possible, attach incoming lexical items into the clause or phrase currently being processed (i.e., the lowest possible nonterminal node dominating the last item analyzed).
  3. Minimal Attachment: Attach incoming material into the phrase-marker being constructed using the fewest nodes consistent with the well-formedness rules of the language


Referências Bibliográficas

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